quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Mensagem com um ligeiro carácter natalício



Se calhar isto devia ser uma mensagem natalícia e se calhar até é. Já estou a entrar nos "se calhares" o que nem é bom, não aprecio.
Eu só tive a realização espiritual que era Natal por volta das 1h30.
Não foi por ter tido uma aparição, por alguém me ter avisado, por ver as felicitações no facebook, foi isto:
- Ana o teu telemóvel não está ligado? A Sara diz que está farta de ligar. Vais buscá-la ou tenho de ir eu?
- Já que estás de pé podias ir tu.
- Oh pronto...
(olho pro relógio, 5 segundos)
- Maaaaa maaaa, eu vou, tu fazes anos.
Não é que eu só faça favores a aniversariantes mas foi aí que senti que estamos no Natal apesar de ter árvore com luzes que piscam de maneiras diferentes, prendas escondidas, bolo rei, cabazes e essas coisas. Tem sentido porque é a única coisa que nunca mudou no meu Natal, é a minha Mãe fazer anos e o esforço que eu e a irmã e o Pá fazemos durante todo o dia para que ela não fique triste. Na verdade, o meu espírito natalício de reunião familiar que já me fez fazer teatro de marionetas, armar-me em bailarina com o meu pai para deleite familiar, andar o dia todo vestida de Mãe Natal a fazer as distribuições de prendas, levar um enxerto de porrada do meu primo, mandar postais...foi incutido pela Natalina de Jesus (porque é que a minha avó nao autorizou este nome genialmente proposto pela madrinha?)
Oh tenho saudades do tempo em que me sentava a escrever postais natalícios que a única coisa que tinham a ver com a época era o "Feliz Natal" final. Não me interessa o significado religioso disto e como isto nasceu, já tenho laços sentimentais com a época ao ponto de não ter vontade de fazer uma análise racional desta.
Não gosto mesmo de ter coisas importantes para fazer nas férias de Natal que têm todo o enquadramento e cenário para o profundo descanso. Tenho descanso físico em demasia mas não consigo ME descansar. É que as pessoas precisam descansar-se para revitalizarem, relaxarem a um ponto em que se ergue a sua essência, as suas vontades, os gostos e de novo o que fazem e o que dizem e o que pensam consegue constituir o que realmente são. Basicamente repor o stock de identidade.
Já estive mais longe de descurar as minhas responsabilidades, ainda fico com uma crise de identidade e para adicionar vem a síndrome de desperdício de tempo de vida e angústia nervosa dos quase 21 anos.
O que vale é que eu suspeito que a duração das crises é epocaexamememente limitada, se não for pode ser que 2011 seja o ano em que há o verdadeiro extravazamento da rebeldia empacotada durante toda a minha existência.

Bem vejam lá se têm um Natal espirituoso e descansado e se têm tempo façam reposição ^^

domingo, 19 de dezembro de 2010

Será que o bem predomina?



Isto é somos maioritariamente boas pessoas?

Muita gente perante esta pergunta hesitaria e diria "nos tempos que correm já não sei, tanto tarado e criminoso e tanta guerra." Sim legítimo.
Mas eu acho que sim.
Esta pergunta surgiu num cenário não muito propício à reflexão isto porque o mulherio decidir ver um filme ( quer dizer estavam lá 2 exemplares do sexo masculino, até estiveram 4 mas não se notava). O filme era Blood Diamonds, ou seja é um filme de coisas sérias, e nunca vimos um filme de coisa sérias em grupo. Houve quem chorasse com os trailers anteriores ao filme, quem já tivesse visto o filme e mandado comentários do género " Ele vai morrer não é? Ai já não me lembro" e até discussões sobre a importância fulcral dos jornalistas nestes conflitos com pérolas de comentários:
"Os jornalistas são os únicos que fazem alguma coisa nestas situações."
"E os médicos?"
"Os médicos são do governo vês?"
"Estás a ver o que jornalistazeca conseguiu?"
"Olha ali a pilotar o avião, também deve ser um jornalista"
Para terminar na parte mais emotiva do filme em que devíamos estar emocionados e em alta tensão,surge a frase "as tuas vacas te esperam" que nos pareceu a coisa mais engraçada do mundo. A nossa parvoíce colectiva é incrível, eu fico infectada com 3 minutos de convivência com mais de 4 elementos do grupo. Quando somos menos de 5 até conseguimos parecer adultas. Excepto quando decidimos ir só duas para a noite a perguntar preços de bebidas e a beber colas e sumos de ananás e achamos tudo muito divertido.

Bem, voltando á questão, ela surgiu num diálogo do filme e eu mesmo naquele cenário fiz uma pequena reflexão.
Ora em primeira análise o bem predomina porque diariamente há mais nascimentos do que assassinatos, há mais acções de caridade do que atentados, penso que há mais gente a oferecer do que a roubar (mas não tenho certeza neste ponto), há mais "passou bens" e beijinhos do que socos e estaladas.
É engraçado como se entranha na nossa cabeça o que é bom e mau, é tão intrínseco. Eu penso quem é que disse que isto é que é fazer o bem? Porque é que no ínicio de tudo não ficou estabelecido que o correcto era eliminarmos a concorrência?
Já repararam que os nossos antepassados conseguiram aperceber-se que precisavam uns dos outros e que eram mais felizes em grupo: "Para quê matar ou magoar aquele macaco se ele até sabe fazer fogueiras?" Mas se viesse outro grupo eles matavam porque não precisavam deles, eram simples competição.
Fomos evoluindo, os grupos tornaram-se maiores, fomos precisando de cada vez mais gente, construindo ligações de dependência com cada vez mais pessoas. Começaram a aparecer pessoas a pregar formas de vida e depois surgiu ética. Caraças isto é íncrível. Apareceu o perdão, sermos bons com pessoas que fizeram mal! Apareceu o chamado altruísmo! A noção do que é justo e injusto. As pessoas começaram a viver umas com outras e a ser simpáticas e desejar coisas boas a quem não fazia diferença nenhuma no seu bem estar. Há pessoas a arriscar a vida para salvar outras todos os dias ( aqui a adrenalina tem um peso algo relevante mas não deixa de ser fabuloso) e outras que albergam, ajudam, tratam, criam estranhos porque sim, porque gostam.
Agora não sou ingénua ao ponto de ignorar que a maioria da bondade mundial é uma bondade frágil e de conformidade que se mantém porque nos deparamos mais com boas situações e com boas pessoas e que apesar dos maus dias e dos maus episódios temos as necessidades básicas asseguradas e acesso a quem e ao que nos dá prazer ( de acordo com as possibilidades financeiras claro).
Mas e se perdéssemos tudo? Não voltaríamos a ter as atitudes animalescas dos antepassados? Não seríamos maus como as cobras?
Nunca posso dizer com certeza no que me tornaria se vivesse na miséria mas uma coisa posso dizer: a probabilidade de me tornar uma cabra implacável sem escrúpulos, nem piedade que não sabe o que é altruísmo e totalmente ajustável ao perfil de assassina seria muito maior se me tirassem QUEM eu gosto. E espero que isto se verifique na maioria das pessoas.
É no final de contas, o maravilhoso resultado de evolução, porque se dantes matavámos quem não precisávamos hoje na maioria eramos capazes de matar se nos privassem de quem precisamos.
A mente humana não tem limites para nada, o mal não é excepção. Cometem-se atrocidades todos os dias, fazem-se coisas cada vez mais repudiantes e elaboradas para magoar as pessoas mas predominantemente o bem já está no DNA da espécie humana.

O planeta vai assegurar a bondade de confortabilidade? Provavelmente não.

Se a penúria atingir a maioria espero que a espécie humana tenha pontos bondosos suficientes para não sofrer involução.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Luz, preto, Luz, preto, Luz
Visão intermitente atingia-me no alcatrão
Senti vontade de rebolar
Sim, vários movimentos rotativos
Agitavam a inspiração

Sensação física incomodou
Raios, um relevo frio
Estava o tempo e espaço retornados
Uma chave? Verdadeira chave
Perante o universo rio!

Fechados são minha inconcebilidade
Estes pobres sinais!
Desconhecem destinatário

Aqui, presente contentor
O lixo possui maior clarividência
Tampa erguida, cega mão envolvida
Procura -se astral evidência

E chega a madrugada da verdade
Um nabo, revelador
Teria então um robusto tractor

Desenganem-se desperdícios humanos!
Pura leviandade
Deporto qualquer amanhã aterrado
Possuo Cidade.

sábado, 20 de novembro de 2010

E lá fomos à Lapa


No bonito dia de ontem fomos à Senhora da Lapa, o que acontece todos os anos em Outubro ou Novembro. Segundo a minha mãe o único ano que não fomos foi o pior ano familiar que tivemos, não se admirem, a minha mãe é crédula ao ponto de me ligar no fim de um exame a perguntar:
-"Correu bem?"
Não, isso era o normal.
-"Posso apagar as velas?" Sim, é isto. E de certa forma prefiro essa pergunta.

Era costume irmos com amigos do meu pai, um grupo grande mas ja há alguns anos que vai só o quarteto.
Nunca percebi muito bem porque vamos lá mas até é divertido, isto porquê?

A razão a que recorro quando este hábito é questionado consiste em:
"É pelo javali. Adoro javali e só como lá"

Não deixa de ser verdade mas agora também posso comer na casa da Maria Luís. A Izinha para ser bem descrita daria outro post assim fico-me dizendo que é um ser humano à qual não associo um animal e tem um pai caçador.

Javali é mesmo bom mas há outras razões.
Não sei se sabem mas a Lapa é um sítio religioso cheio de peculariedades.
Começando pela lenda, um miúda muda encontrou a imagem da Nossa Senhora numa gruta, levou-a para casa, a Mãe achou que aquilo nao valia um esterco e ia deitá-la pra fogueira, então a miuda falou para defender a imagem.

A Igreja tem a tal gruta dentro, a parte engraçada é que para sairmos da gruta há uma passagem mesmo estreita entre os rochedos e diz-se que quem não passa lá cometeu pecados muito graves. Pensam vós, o pecado da gula. Naturalmente mas também já vi diametros corporais a conseguir passar para metade e atravessar o julgamento. A força de vontade é incrível.
Mas isto não acabou, de repente entramos numa sala e está um crocodilo pendurado no tecto que me aterrorizava quando era pequena. Lamento informar que quem nunca viu agora terá apenas oportunidade bem menos emocionante de o ver através de um vidro e ao nível dos seus joelhos. Já não há impacto.

O que faz o crocodilo na igreja?
Versão 1: Uma senhora ia a descer a "Cova do Lagarto" e foi atacada por um crocodilo ou sardão gigante. Como só tinha o novelos de lá do saco, lembrou-se e atirou-lhe com eles. O crocodilo comeu aquilo e ficou tão empanturrado que ficou inofensivo. Então a senhora puxou os fios restantes e esganou-o.

Versão 2: Um caçador da Índia foi atacado por um crocodilo, ia morrer só que pediu ajuda á Senhora da Lapa e teve forças para o matar. Como agradecimento levou a pele à Senhora da Lapa.

Em termos de credibilidade talvez seja melhor a 2 tirando o pormenorzinho de ter sido na Índia. Mas tenho inveja de quem inventou a 1.

Isto e o javali chegam para ser divertido ir à Lapa agora juntando preciosidades como:
- O meu senso de humor selectivo ao ponto de achar piada a coisas como "Fui tomar café com o Carioca"
- Resoluções de almoço que proclamaram a implantação de jantares quinzenais de aproximação familiar.
- Explicações meteorologicas e colunas ascendentes e descendentes da minha irmã.
- A aposta decidida do meu pai em que uma mesa de membros de uma confraria da Murtosa era sem qualquer dúvida uma reunião de Padres.
- Indigações se existe alguém no mundo que já foi salvo pelas rampas de emergência das estradas inclinadas. (confesso ter um inconsciente desejo de experimentá-las)
- Viagem de regresso, eu com o poder do volante, 3 desvios, sandwiche com camião gigante e autocarro, chuva torrencial com granizo, e IP4 ( "olhem isto não é a estrada mais perigosa de Portugal?".
- Banda sonora consistiu apenas na repetição dos comentários.
Eu- Está tudo controlado. e Ai agora estou com medo.
Pai- Xiu. Mais devagar. Trava.
Mãe- Ahahahaha Aahahaha Aaahahahaha.
Sara- Está um dia muito feio para eu morrer fogo.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Mayakovsky-Frank O’Hara

My heart’s aflutter!
I am standing in the bath tub
crying. Mother, mother
who am I? If he
will just come back once
and kiss me on the fae
his coarse hair brush
my temple, it’s throbbing!

then I can put on my clothes
I guess, and walk the streets.

I love you, I love you,
but I’m turning to my verses
and my heart is closing

like a fist.
Words! be
sick as I am sick, swoon,
roll back your eyes, a pool,
and I’ll stare down
at my wounded beauty
which at best is only a talent
for poetry.

Cannot please, cannot charm or win
what a poet!
and the clear water is thick

with bloody blows on its head
I embraced a cloud,
but when I soared
it rained.

That’s funny! there’s blood on my chest
oh yes, I’ve been carrying bricks
what a funny place to rupture!
and now it is raining on the ailanthus
as I step out onto the window ledge
the tracks below me are smoky and
glistening with a passion for running
I leap into the leaves, green like the sea

Now I am quietly waiting for
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.

The country is grey and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funy
not just darker, not just grey.

It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.

domingo, 31 de outubro de 2010

Espontaneidade e Halloween? Fracassos



Resolvi escrever uma coisa muito muito espontânea e sem objectivo para variar um pouco.

Já falhei. Na verdade já planeei espontaneidade e falta de objectivo e uma pitada de diferença do habitual logo esta incursão já está destinada ao fracasso. Fracasso de processo.

O fracasso é adequado ao dia de hoje, Halloween em Portugal é concerteza um fracasso.
Na passada segunda estava eu a preparar um pequeno jantar de latada em minha casa quando ouço a minha campainha e penso que afinal o mundo ainda tem pessoas bondosas que chegam cedo aos jantares para ajudar a por a mesa e a trazer-me os condimentos. Mas não.
Abri a porta e estava uma figura de estatura pequena em frente a mim, o corpo era de menino mas a cabeça estava substituida por uma caixa rectangular, maior em altura com 5 buracos que deduzi serem correspondentes às feições humanas. Da caixa esburacada saia uma canção infantil, não reconheci qualquer semântica na canção, so digo que é infantil porque era um menino a cantar).
Fiquei um pouco sem reacção, até que ele tira a caixa e eu "ah é Haloween?" e ele "sim". Entretanto outro miúdo aproxima-se , era um gémeo. Talvez por causa disso dei mais valor ao esforço e perguntei "querem dinheiro? ou doces?". Ele "o que quiseres". Fui buscar doces, tentar pelo menos. Ora eu não gosto de gomas, chiclets, rebuçados nem de chocolate doce. Eles rejeitaram as minhas bolachas com framboesa, até fiquei contente, tinha poucas e tenho de guardar pra quando o João vem lá a casa.
Ficaram com a barrinha de cereais Nesquik da Catarina.

Este cenário com uma música "agora é a parte em que todos choram" podia de facto fazer soltar umas lágrimas. Mas se pusessem as gargalhadas finais sinalizadoras de piada também daria para chorar a rir.

É assim quando não conhecemos tradições como Bolinhos e Bolinhós e nem sequer sabemos em que dia é o Halloween.
Estes meninos pelo menos obteram os seus doces mais cedo e segundo a própria tradição da sua terra, é legítimo.
Pronto, Bolinhos e Bolinhós sim, Halloween não. Em Inglaterra também não fazem magustos no dia de S.Martinho.
Até gostava de ser assustada, é emocionante. A minha vizinha assassina louca bem que podia voltar a vir possuidamente com um bastão pra minha porta reclamar do barulho, isso sim é que é bom pro Halloween.
Mas ninguém quer isso, na verdade país está todo excitado porque pode vestir-se de vampiro e ser como o Dudu e a Belinha.
Passei a minha adolescência a pensar que ser vampira era a solução da minha grave dificuldade em lidar com o fim da vida, eu queria ser imortal (e sinto que sou) mas esta solução é muito banalizada e pouco viável. A minha solução irá surgir e eu não vou deixar de existir.

E convenhamos, nem sequer está a trovoar como ontem, os trovões assustam, a vez em que estive mais perto de morrer foi por causa de um trovão. Ontem também estive perto de morrer, achava que tinha uma embolia pulmonar, eu não sou paranoica com estas coisas mas tudo é possível. Depois para chamar a atenção dizia "Sara gostei muito destes anos de vida, queria mais, mas não vai dar". Ela ri-se e depois volta a queixa-se por ter fisionomia igual á Beyoncé. A minha mãe não podia ouvir isto claro, tenho de seleccionar. A segunda situação assustadora de ontem foi realizar que bebo sempre Águas das Pedras Limão de penalty. Não consegui retirar grande conclusão disto, porque é so especificamente as Pedras Limão. A Cola também é doce e tem gás mas não dá. São aquelas inexplicabilidades engraçadas. Há poucas Pedras Limão na nossa existência.

Hoje pra além desta minha tentativa de abertura de espírito não prevejo nada que faça arrepiar. E sim vou deixar de pensar em levar as minhas amigas para locais abandonados, fazer manobras de volante perigosas e aparecer à janela do quarto da minha mãe com um saco na cabeça.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Não às cómodas, sim às estantes


Cómoda é uma peça de mobília baixinha e antiquada e serve para guardar pouca coisa, mais pratos e toalhas e depois coloca-se arranjos e fotos e bibelôs em cima.

Comodidade vem de cómoda e é tão desinteressante como a mãe.

Acho errado o apreço á comodidade, ao mais fácil e mais à mão de semear.
As pessoas começam por ser cómodas na escolha das refeições, na escolha das escolas, na escolha dos vizinhos como amigos, na não separação do lixo e acabam a ser assim na escolha de toda a vida, ao escolherem um parceiro porque mora perto, ao permanecerem no mesmo sítio para não ter que fazer novos amigos, ao escolher o curso porque o pai já tem um emprego pra ele nessa área, ao viverem com os pais enquanto adultos pra terem refeições todos os dias, ao manter uma relação porque não se está mal e é melhor do que estar sozinho.

Acomodam-se no que conhecem, no que sabem, no que lhes faz moderadamente bem.

Não arriscam, não se poêm á prova, não evoluem.

Deixem-se ser incomodados.
Não sejam bibelôs imperceptíveis ou toalhas confortavelmente amassadas numa antiquada cómoda.
Assim nunca saberão o que poderão ser numa bonita, alta e prática estante.

P.S Esteticamente até gosto muito de cómodas antigas mas acho que não invalida o raciocínio.

domingo, 17 de outubro de 2010

Felicidade existencial

Não vou estar para aqui a falar se acredito em Deus e se me identifico com alguma religião. Há umas bastante interessantes mas ainda não é tempo para isso.

Há é um aspecto em quase todas religiões que me enerva um pouco. É o pedir, o suplicar, o suposto rezar. A minha avó diz que rezar é falar com Deus e que tem longas conversas com Ele. Não concorda nada com aquelas ladaínhas padronizadas que se repetem sem fim. Elas são uma forma de adoração eu sei, mas convenhamos que ninguém está a pensar no que está a dizer enquanto as diz. Elas são mais um entupidor de cabeças, ao dizer aquilo de certa forma deixamos de pensar em outras coisas e deve dar ( a mim não dá, não me entope muito ) uma ligeira paz, não sei.
Eu gosto de ver quando as pessoas vão buscar uma certa tranquilidade, força e ânimo à sua crença. Mas não vejo isso.

Eu só vejo as pessoas a pedir, a pedir e a suplicar. "Meu Deus dai-me saúde, dai-me força, protege a minha família, dai-me dinheiro. Isto para mim é desistir, é uma medida desesperada, e não demonstra bem-estar nenhum e não é enaltecer Deus ou o que existe.
Não seria mais lógico "dar graças" ?
Ora se uma pessoa acredita que Deus criou e rege tudo e tem poder em tudo. Tem mais é de agradecer. Pensar na sorte que tem, e note-se que toda a gente tem de agradecer nem que seja o facto de existir. Se pensassem nas coisas boas que têm e com que contactam todos os dias e fossem rezar a Deus e agradecer e dizer "que bom, a sério", aí sentiriam-se bem e teriam um contentamento puro que lhes daria força para aguentar as chatices. Isso sim seria um bom uso da crença.

Não vou dizer que nunca pedi nada, fiz o crisma, tive educação católica. Já rezei e pedi coisas a Deus, mas descontraidamente e confesso mais do estilo "ora vamos ver se resulta". Também já lhe agradeci, é o que faço quanto estou em situações em que é suposto rezar como nas idas à Senhora da Lapa. Sei ver que tenho sorte em muitas coisas, como, onde nasci, na família, nas possiblidades, amigos, na própria base genética. Contudo não vou ser hipócrita convosco.

Há alturas em que nada disso parece adiantar porque ligamos o sensor da miséria e só detectamos cada ínfima porcaria que está à nossa volta. Aqui nestes momentos eu tenho o meu equilibrio base. Não são as distracções, as piadas, as compras ou o chocolate. Estes ajudam mas seriam muito temporários.
Tenho simplesmente a certeza que adoro a humanidade, adoro o mundo e nunca iria preferir não ser, estar, ver, gostar, detestar, pensar, experimentar, saber, poder. E a origem, as explicações, o "quem fez?", "quem manda?" vão surgindo e vão sendo pensadas mas ficam diminuídas perante isto.
Porque isto é o que chamei de felicidade existencial.

sábado, 16 de outubro de 2010

Culinária Genética Humana


Já ouvi mais do que uma vez apelidarem a carga genética com que nascemos de cozinhado. A minha avó até diz "quando estavas a ser cozinhada". Também diz "que petisco que me saíste" mas isso não tem nada a ver.
Sermos um cozinhado até tem sentido pois é uma mistura não proporcional de ingredientes e pequenas variações na concepção podem alterar tanto o aspecto como o sabor do resultado final. Imaginemos toda a gente como um cozinhado, que gostamos muito, pouco ou não e estabelecemos a relação com ela conforme isso.

Os critérios mais importantes num cozinhado são:

- Sabor
- Aspecto
- Impacto na saúde

O sabor do cozinhado é subjectivo. O mesmo prato sabe-nos diferente de vez para vez, depende até da nossa disposição no dia. As experiencias passadas contam muito, podemos ter más experiencias com pratos semelhantes, ou estar farto daquele grupo alimentar.
Cada vez que temos contacto com determinado cozinhado conseguimos discernir se nos agradou ou não. Se for um sabor totalmente novo há muita gente que se assusta e rejeita. Se for semelhante a algo que gostamos, é bom e comemos e voltamos a repetir. Se tiver um impacto negativo, escolhemos automaticamente entre 2 vias. Deitamos fora porque não há mais que fazer. Ou então pensamos uma maneira de salvar o cozinhado mudando-o. É preciso ter alguma sabedoria culinária e bagagem para salvar o cozinhado. Dizer o que falta até nem é complicado.
Muitas vezes é sal, pouca gente gosta de coisas insossas. A quantidade de sal é que é um desafio, algo excessivamente salgado é irremediável, podemos disfarçar com um molhinho ou tentar juntar uns acompanhamentos que atenuem mas o excesso de sal estará sempre lá. Após a refeição ficaremos com sede durante horas e horas. Não se aguenta. O truque é juntar aos poucos.
Outras vezes está cozinhado de menos ou cozinhado demais. O cru é bom porque ainda podemos mudar facilmente, deixamos mais ao lume, esperamos. O chamado muito passado, muito cozido é irreparável, normalmente acabamos por comer mas não repetimos. O queimado não convém, dá indigestão e pode mais tarde como se sabe provocar cancro.
Há quem não goste de desperdiçar depois compensa com uma melhor refeição seguinte.
Há cozinhados que precisam de mais pimenta mas há muita gente que não tolera e fica com mucosa gástrica irritada. Podíamos acrescentar especiarias mais exóticas, mas a maioria dos cozinhados não combinam com isso.
Há acompanhamentos que fazem toda a diferença. Tantas vezes escolhemos um prato por causa dos acompanhamentos. Um arrozinho de tomate disfarça bem um bife mal temperado, o molho do arroz pode até entrar no bife e mudar-lhe o sabor. Por outro lado uns legumezinhos até podem ser agradáveis mas vamos acabar por deixar o bife no prato e não ficar satisfeitos. Podemos acrescentar um aconchegante e querido molhinho de natas e cogumelos, nas primeiras garfadas vai ser mesmo bom, mas vamos enjoar, porque natas num mau tempero não funciona. Um bom vinho empurra como costumam dizer, mas corremos os risco de nos embriagarmos e ficarmos com capacidades mentais reduzidas.
Certos pratos não necessitam de ter especial acompanhamento porque já são muito elaborados, esses são os melhores normalmente. Um arroz de marisco e um empadão. Arroz de marisco mesmo bom e também susceptivel a mudança, podemos por mais sal, molho de tomate, mais marisco, é ideal. Só não pode ser deixado á espera se não o molho vai-se e também não há grande remédio. Um empadão é mesmo bom e enche-nos bastante, mas não há grandes mudanças que podemos efectuar. Porém puré disfarça uma má carne e consegue esperar algum tempo, é paciente.

Relativamente ao aspecto, terei de recorrer à expressão "comer com os olhos", é o que muitos fazem. Mau e bom aspecto nem sempre se relacionam com o sabor. E depois junta-se a pressão social "vais comer isso? parece estragado" ou simplesmente "que mixórdia é essa que estás a comer?" ou pelo contrário "isso tem tão bom aspecto", posto isto há quem dê a provar, quem queira as coisas só para si e o próprio apreciador pode não querer provar por estar satisfeito.

Agora a saúde. É preciso variedade na alimentação para crescermos e construirmos uma barreira imunitária. No fundo qualquer exagero de determinado prato é mau, enjoa, entope-nos as artérias. E depois ficamos doentes e temos de cortar determinado grupo alimentar mesmo que nos custe. Por fim, não devemos passar muitas horas sem contactos alimentares.


Devemos tentar conservar as características fundamentais do nosso cozinhado. Mas metermo-nos num congelador, imutáveis, à espera de ser descongelados não é via. Temos de nos deixar mudar, de nos deixar ficar melhores. De ir procurando os acompanhamentos ( aqui para esclarecer acompanhamentos é tudo o que rodeia o individuo, o que vem com ele, bens/ actividades, amigos, etc) que mais combinam connosco. Não adianta pensar que um dia vamos ser invadidos pelo bolor e seremos destruídos, sim temos um prazo mas também há cada vez mais maneiras de conservação.

Acho que conseguiram ver os diversos paralelismos. Há conversas que dão nisto. Será uma teoria, teoria da Culinária Genética Humana.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Poderes sobrenaturalmente naturais


Hoje sei que é humanamente impossível ver átomos de oxigénio à vista desarmada mas passei anos a jurar que tinha poderes sobrenaturais e via-os se me concentrasse. Há pouco tempo descobri que vejo mal, tenho astigmatismo. Isso não favorece a minha teoria da visão mutante. De qualquer forma não é nada espectacular nem útil.

Algumas vezes com uma frequência aleatória penso que cada um de nós tem um poder sobrenatural mas quase ninguém descobre porque não calhou. Sim, já tentei mover coisas com o olhar, teletransporte, fazer leitura de pensamentos, previsão de desastres, ver se tinha reflexos fora do normal, mudar o ambiente de uma sala, fazer com que fique bom tempo, criar uma chama. Confesso que até tentei reflectir sobre as probabilidades de ser um muggle mas passou-me logo. So não tentei com muita veemência atravessar paredes e voar por motivos óbvios.

Azucrino a minha imaginação a pensar em mais para ver se algum se verifica. Mas na verdade nós podemos ter poderes tão descontextualizados que nunca iremos sequer pensar e conseguir aperceber-nos que o temos.
Quem sabe se uma emoção forte de carácter negativo aqui não influencia a vida de alguém no Japão ou se até não temos a capacidade de determinar o destino de alguém por imaginarmos com força uma situação que queríamos ou temíamos que acontecesse connosco? Podemos até fazer isso no sonho insconsciente e nem lembrar.
Não acho isto nada provável mas também se acontecer nunca saberemos.

(Eu não sou nada de cosmicidade apesar de ter panca pelos signos. Note-se que não acredito em previsões astrológicas mas acho interessante o facto de alguém se ter lembrado desta padronização, de nos tentar reduzir a 12 personalidades básicas. Admitamos que não é ideia de uma pessoa burra. Há livros extensos sobre o assunto e já li um que os meus pais tinham aqui umas 10 vezes. Tenho é paixão por maneiras de ser e reagir, basicamente por pessoas.)

Voltando ao assunto, uma vez li uma teoria de que temos interacçoões químicas com todos os seres da nossa espécie que influenciam o funcionamento do nosso organismo das mais variadas maneiras. Assim simplesmente porque estivemos sentados à beira de um homem qualquer num autocarro podemos através das tais interacções químicas ficar com uma enxaqueca nesse dia. Mais, um doente pode despertar do coma devido ao contacto com alguém que emane o perfil químico correcto. Daí ser tão pouco exequível o prognóstico destas situações. Grandes obras e criações também seguiam o mesmo processo ou seja a inspiração também era química. E como seriam de esperar, também todos contentitos, explicavam o mito da alma-gémea com base nisso.
Não sei onde li isto, nunca mais encontrei, às vezes até acho que sonhei.
É bastante rebuscado mas sabe-se lá, a verdade é que o nosso organismo e o ambiente que o rodeia são como aqueles casais que não desgrudam e que estão sempre a convencer-se e a concordar-se mutuamente caminhando para pensar da mesma forma.

O que eu sei e penso bastantes vezes é que as relações e interacções humanas, e falo mais a nível psicológico, determinam quase tudo o que acontece neste mundo ou pelo menos a forma como acontece.

Vejamos. O Manel acorda para um dia normal. O café tinha acabado e ninguém comprou. Reclama com a esposa, a Maria. Maria vai po trabalho enervada. A secretária diz-lhe que ontem enganou-se a mandar um dado para um cliente mas já está a corrigir. Ela chama a atenção mais agressivamente que o normal. A secretária Rita ainda é nova e uma pessoa bastante insegura. Fica nervosa, liga para a Mãe a chorar "eu sou uma inútil, vou perder o emprego". A Mãe Susana fica triste e preocupada e resolve ligar ao irmão. O tio de Rita é amigo de Maria e recomendou-lhe Rita. Susana conta o que aconteceu e pede lhe que interceda. O tio Artur riposta e discutem durante uns 5 min. Artur já estava no carro prestes a sair de casa já atrasado para o trabalho quando recebeu o telefonema. Mal desliga, arranca rapidamente. Uma bicicleta aparece à sua frente, ele atropela o vizinho Joãozinho.

Isto é possível e acontece. De certeza que ja fizemos pessoas muito felizes ou muito infelizes que nem temos ideia de quem são. É toda aquela questão de tempo e espaço e o nosso estado mental tanto racional como emotivamente. Podemos estar a determinar mortes e nascimentos no mundo todos os dias. Acho isto um poder incrível e um pouco assustador.
Ora tentar ser uma boa pessoa intrinsicamente e não espalhar negatividade não deixa de parecer uma mensagem religiosa mas prefiro ve-la como um ideal hippie para termos um universo mais equilibrado e jeitoso.
De qualquer forma, não deixem de tentar os outros poderes mais improváveis, nunca se sabe e é divertido.

sábado, 2 de outubro de 2010

"Que seja a última vez"




Hoje dei por mim a imitar a minha mãe em cenário de grande irritação e abuso de boa vontade: levantei e engrossei a voz, arregalei os olhos e disse ameaçadoramente (por telefone)
"Que seja a ultíma vez Sara Filipa"

A raiva passou em quê? 5 minutos? O objecto da raiva fechou-se no quarto mas amanhã estará tudo normal. Como fica normal quando nos insultamos e ela bate com as portas.

Tenho uma incapacidade natural de berrar com alguém e não sei o que é "passar-se da cabeça". Aliás fico impávida quando numa discussão surgem murros nas paredes e pontapés a coisas aleatórias. Nunca entendi o espalhafato e violência que toda a gente parece gostar de incluir nas discussões quotidianas. A minha reacção a isto é do mais primitivo que há, fujo. Hei-de fazer um posto totalmente dedicado á porrada.

Na última vez que berrei com a minha mãe, arrependi me e chorei 1 min depois. O choro resolve estas coisas porque habitualmente ninguém gosta de discutir com alguém que dá claros sinais de fraqueza. Ninguém normal.

Aparentemente sei como fazer as pessoas passarem-se da cabeça. Ora se numa discussão até bastante banal, eu me sinto atacada, eu ataco com palavras e uso todo o cinismo possível e imaginário porque acho a melhor defesa. Além de que, numa perspectiva fria, é interessante por o meu lado mau a funcionar.
Não reparo que estou a fazer a pessoa passar-se da cabeça, só que estou a derrotá-la com palavras. É como um jogo, e a partir do momento que noto a voz mais alta e agressiva perde todo o interesse.
Fraqueza mental, vão recorrer ao poder físico.

Concluindo, acho berros e descargas nervosas pouco merecíveis de atenção, não têm efeito prático nenhum a não ser denegrir a imagem.
Tenho os meus amuos de 1 hora e aqueles votos de silêncio de 30 minutos ( estou bastante temporal hoje) e as cenas do "se entrares aqui eu saio". É tao raro irritar-me que só conheço uma pessoa capaz de vir aqui reclamar esse feito.

O que realmente abrasa um pouco e me chateia verdadeiramente são injustiças e faltas de consideração perante a minha pessoa.
Isto é, eu consigo achar que a pessoa não foi merecedora dos meus lugares, ideias, qualificações, charmes, épocas.
Discutir nestes casos? Cinismo e jogos mentais?
Não justifica, se consigo passar a ter uma relação mais obrigatoriamente civilizada e circunstancial que com o caixa do pingo doce.

domingo, 26 de setembro de 2010

Ana Sofia e os Animais



Era uma vez a Ana Sofia que descobriu o mundo com animaizinhos mas estes não lhe interessaram muito. A maioria dos meninos e meninas abraçavam os cãezinhos e faziam lhe festas, Ana apenas dizia "com licença cãozinho" (sim é verídico) quando estes se atravessavam no seu caminho.

A avó tinha um cão chamada Aramiz, era um minorca, então Ana colocava-o no carrinho e passeava-o obrigando-o a comer farinha de pau. Foi a primeira espécie de relação com um animal. Aramiz morreu de insuficiência cardíaca. Depois o padrinho arranjou uma dálmata, a Lady. Era esquisita, gostava de comer cascas de banana e pacotes de manteiga Mimosa de uma só vez. Ás vezes atacava conhecidos, devia ter transtorno bipolar. A adolescente Ana Sofia só lhe dava bolachas e em momentos de loucura contava situações do seu dia, nunca lhe tocava.

Entretanto a família Machado tentou estrear-se nos animais domésticos.
Primeiro foram os periquitos, não correu bem.
Do primeiro casal, morreu a fêmea, o marido ficou desgostoso e ganhou crostas no bico. Arranjou-se companhia, ele não melhorava. Começaram a morrer continuamente. Um dia descobriu-se que o marido era uma mulher e matava todos os companheiros. A primeira morte desgostou Ana, depois achava-os chatos e mal cheirosos.
Próxima tentativa: peixinho. Era o Óscar (que original). Ana Sofia não lhe ligava nenhum, um dia chegou a casa e soube que ele tinha tentado suicidar-se saltando do aquário para o tapete. A Mãe salvou-o mas ele morreu 3 dias depois.

Até que um dia o pai resolveu que precisávamos de um cãozinho e comprou uma Serra da Estrela, a Luna. Quando era muito pequena tinha a sua piada e brincava com ela e levava lhe comidinha, Ana achava mesmo que um dia ia levá-la a passear sozinha mas a Luna traiu-a. Um dia de manhãzinha deitou os dentes às meias calças e Ana começou a chorar, chorava chorava, implorou que parasse, que a estava a magoar, mas Luna não quis saber e aí Ana percebeu que Luna não tinha consciência e tinha alma assassina.
Não dava para confiar nela, nunca mais lhe falou, ainda hoje nem se lembra que tem uma cadela.

A Lady morreu de ataque cardíaco, coitadas daquelas artérias. Luna ainda está viva mas só serve para uma breve apresentação "ah sim temos uma cadela Serra da Estrela" quando se mostra a casa a alguém e ,por acaso, chega-se perto daquela parte do jardim.

Hoje em dia, Ana não tem qualquer relação com um animal nem sente vontade de ter (às vezes ainda surge o desejo de ter um amigo cavalo mas passa quando pensa na queda que a tornaria paraplégica). Tem medo de gatos devido a uma ataque nada amigável, são os mais traiçoeiros de todos. Apesar disto tem em casa uma colecção de miniaturas de todas as raças de cães incluindo os cachorros respectivos que a Avó comprava e ela gostava. E tem o estranho hábito de ver um animal na cara das pessoas que conhece e adoptá-lo como alcunha quando tem mais confiança.
Ani Javali e Catarina Avestruza são as mais recorrentes mas também há a hipopótama, a foquinha e assim.

Fim.

1.1 Conclue sobre a personalidade e futuro da Ana através da história.
- É fria e pouco carinhosa.
- É traumatizada.
- Vai ter problemas em constituir família.

A última opção até é legítima, porque a vida familiar perfeita está sempre ligada a uma domesticação animal.
Ora mas o que eu acho é que é resultado do medo de irracionalidade e do ter de basear tudo na dimensão emocional e primitiva das relações. Aliás esta é bem capaz de ser também a razão por detrás dos meus problemas de relacionamento humano.
E pronto.
Digamos que se há que fazer um esforço, será em prol da própria espécie.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Semântica Ilusionista


Gosto de pensar no sentido das palavras e porque é que foram feitas assim.

As que começam por "des" são um pouco incoerentes.
Supostamente quando juntamos o prefixo "des" era para dar o sentido contrário da forma verbal adiante.

Como desocupar, desfazer, desatar, desentender, desligar, desconectar, desculpar
mas depois existe desafiar, destacar, despoletar, designar que já nao funcionam assim.

No outro dia pensei em "desiludir", esta tem que se lhe diga. Ora desiludir, é não corresponder às expectativas, ao que era suposto.
Porém visto se enquadrar no primeiro grupo de palavras que mencionei, o grupo dos contrários é literalmente "deixar de iludir".
Ilusão é mau, desilusão deveria ser bom, mas é mau e bastante mau.

Desilusão consegue ser mesmo desgastante a nível emocional porque parte de algo que considerávamos bom de forma sólida.

Por outro lado se pensarmos que uma desilusão é descobrir um falso bom, então é positivo porque ninguém precisa de falsos bons.

Porque é que nunca dizemos "tu iludiste-me", "fui iludida" e dizemos sempre "desiludiste-me tanto"?
O centro da questão é a ilusão em si.
Ninguém deve iludir ninguém nem ninguém deveria se deixar iludir.

Ao queixarmo-nos da desilusão, até parece que a ilusão é mel. Só se for mel estragado. Tenho a impressão é que nós gostamos de ser iludidos, às vezes, passeamo-nos nas ilusões tal como nos sonhos e aspirações. Até gostamos de ilusionistas. Precisamos disso. Há sempre coisas más de que precisamos na verdade.

Proponho a todos vocês uma mudança de vocabulário. Se alguém ou algo vos der as peças para construírem um palacete e depois vierem a descobrir que era para um quintal, digam

"Tu iludiste-me e ainda bem que tive uma desilusão"

Se vamos deixar de nos sentir a nadar em água choca com lodo e uma lampreia a tentar esganar-nos? Não. Não mas assim está correcto e ter as ideias correctas é bom para a mente.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Pretensão Inevitável

Estava eu a usar toda a sensibilidade artística existente ou não em mim para entender a obra dos melhores coreógrafos de Dança Comtemporânea do Mundo quando a voz crítica madura sentada ao meu lado se ergue no meio daquela sonolenta música.

-Que pretensiosos.

Nunca uso esta palavra e comentar assim no meio de um espectáculo não é muito bonito. Ainda assim, pretensioso foi mesmo bem utilizado.

Eu acho que o que acontece com os topos de gama das várias artes é mesmo isto. Ganham pretensão. Sabem que são os melhores então deixam de dar o melhor.
Tentam fazer algo diferente do que o que os distinguiu como melhores e ser igualmente melhores nisso.
Raramente conseguem mas como têm o estatuto e o passado brilhante continuarão a ser admirados e seguidos.
Isto até alguem fizer algo inovadoramente melhor naquela área.
O que não é impossível. É bastante possível aliás.
E aqui está toda a problemática de ter o estatuto de melhor.

Eles eram coreógrafos. Dançavam espectacularmente bem. Deviam dançar. Mas não dançaram. Quase não se mexeram. Efeitos visuais interessantes, uma multimédia muito bem organizada mas não transmitiram nada. Não percebi a história nem sei se havia. Não houve grandes variações de ritmos. Mesmo chato de ver.
Se realmente mostrassem as capacidades e se movessem e expressassem uma série de emoções através da dança toda a gente na sala teria adorado.
Por outro lado, quanto tempo demorará até surgir alguém que o faça tão bem ou melhor que eles? Que tenha,vá, um simples movimento nunca visto que transforma tudo?

E isto acontece com os compositores, pintores, artistas plásticos, arquitectos, etc

Mas será que podemos condená-los por tentarem inovar e proteger o lugar? Para não falar do quão entediante é fazer sempre o mesmo. É uma pretensão inevitável.
Condenar não consigo. Mesmo que o anúncio do Fairy passe a conseguir captivar mais do que eles.
Eu faria o mesmo, embora que, por razões ja vossas familiares, a probabilidade de tal problema surgir na minha existência seja um pouco igual à de descobrir que pertenço à Família Real Inglesa.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nunca

Confirmo a assustadora teoria de que enquanto seres humanos é impossível identificarmos as coisas que nunca faríamos.
Não dá.
Efectivamente não dá. Nós imaginamos um cenário e uma série de acontecimentos e prevemos a nossa reacção conforme o que conhecemos de nós sendo mais fácil dizer o que eramos incapazes de fazer.
Agora, mesmo que algum dia realmente essa situação acontecesse igualzinha ao que tinhamos projectado na nossa cabeça, as pessoas, o sítio, o tempo e afins ( note-se a improbabilidade disto) nós enquanto um todo não seríamos a mesma pessoa que tinha projectado aquele cenário. Não estou a dizer que estamos constantemente a mudar de personalidade e a alterar as características mas o facto é que somos extremamente mutáveis. Mutáveis simplesmente porque estamos em contacto com o mundo. De dia para dia, com todo esse contacto, nós alteramos e moldamos a nossa mente. E imperceptivelmente atitudes, visões, medos, sentimentos e aspirações acompanham o dia a dia, agarram-se e soltam-se. Há dias em que há um maior impulso tipo um jacto de super cola e uma destas agarram-se firmemente, mas na maioria das vezes o agarranço é leve e efémero. Pode, contudo, surgir um padrão que pela persistência vai escavando a sua forma, até que simplesmente encaixa e o agarranço deixa de ser necessário.
Vagueei um pouco. O meu ponto era a impossibilidade de previsões comportamentais em situações tipo, era isso.

Contudo e não contrariando tudo o que disse anteriormente...
É absolutamente necessário que tenhamos presente o que nunca faríamos e que pensamos e mesmo que exponhamos os nossos "Eu nunca", "Eu não era capaz", "Eu não ia suportar".
Invoco como defesa desta teoria a sanidade mental. E chega. Os agarranços implicam algo para agarrar, não querem superficíes lisas e escorregadias querem relevos e ângulos. Tem de haver uma construção mental harmoniosa com uma arquitectura equilibrada que facilitará ou dificultará as diferentes mudanças e adaptações. Sem construção mental ou com uma construçao mal feita, há bastante desequílibrio e mais imprevisibilidade e mais irracionalidade.

Só ontem estive perante 3 situações em que o "eu nunca" esteve presente e para dar o exemplo garanto-vos :

- Eu nunca usaria uma pessoa para atingir determinada posição, enganado-a e deixando-a na miséria.
- Eu nunca arriscaria a minha vida desnecessariamente.
- Eu nunca mataria sem ser com propósitos de defesa, da minha vida ou de outros.

E isto está na minha arquitectura.


P.S. Este tópico é delicado porque mexe mesmo com a minha construção mental.
Perdoem a confusão.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Intrigante Negócio


Os comerciantes de intervenção, ou seja os que efectivamente se dirigem a nós e nos tentam atrair e convencer a comprar algo que maioritariamente nem sabiamos que queríamos pelo simples facto de que nem sequer precisamos são umas pessoas peculiares, no mínimo. Excluindo os chatos do Barclays, esses são só irritantemente insistentes.

Fascinam-me muito os cânticos, versos, todo o vocabulário extremamente diversificado dos homens das bolas de berlim e bolachas americanas. Porém, tenho de confessar que os homens das rosas detém o poder de suscitar em mim as mais variadas questões.

Porquê rosas? Qual a probabilidade de alguém num contexto social normal querer, de repente, oferecer uma rosa de plástico? Porque não vender as outras milhares de coisas que lhe garantiam maior sucesso comercial?
Porque é que são todos indianos? Porque é que os deixam entrar nas discotecas e cafés? Porque é que a maioria vem acompanhada de um pato que faz um som super irritante?

Nos últimos dias pude aumentar o meu conhecimento ou desconhecimento neste assunto.

Descobri:
1º Eles também vendem certas substâncias. Atenção, não por experiência própria.
O que me levou a pensar que talvez houvesse uma certa palavra ou frase chave para que o outro negócio se efectue e que há uma possibilidade (remota) de obterem um bom rendimento usando este disfarce para o tráfico.

2º Existem mulheres neste negócio. Mulheres de etnia cigana com uma muito maior capacidade interventiva e manipuladora. Recorrem a contactos brutos que roça na agressão física não deixando de parte a violência psicológica ridicularizando e expondo o homem que não adquire o produto com sábios dizeres populares como "Homem forreteiro é um cagão, chega a casa e tem de f**** à mão"

Pois e o que é que eu concluí com tamanho conhecimento e posterior reflexão? Os vendedores de rosas são intrigantes.
E sim sim, o ser original, destacar-se, sobressair-se continua a ajudar ao sucesso, normalmente.

sábado, 4 de setembro de 2010

E o chão duro dá dores de costas, dá.

É dito que ninguém vive sem certezas, que precisamos de coisas seguríssimas, coisas das quais em tempo algum recebamos um "não é assim", "não está aqui" ou um terrível "não existe".

Ninguém aprecia que uma certeza passe a incerteza de modo geral, mesmo que nao gostássemos lá muito das certezas. A validade das certezas não se prende com o conteúdo positivo ou negativo, mas sim com a tranquilidade de espírito e segurança subjacentes. Além disso elas sao uma almofada bem confortável seja qual for o racicionio processado na nossa cabeça.

Não posso deixar de pensar que a minha cabeça é uma masoquista dos diabos que prefere o chão duro. Engenhosamente ela pratica a conversão certeza-incerteza, controlando inclusive os actos para atingir esse objectivo. Mais, ela chega a gostar da certeza e precisar dela mas quer derrubá-la, é como provocar um terramoto para provar que um edíficio não é muito seguro e assim obrigar a que se o reerga com uma construção optimizada. O que ela não percebe é que nem sempre há fundos nem optimizações a efectuar e a reconstrução não se verifica.
E o chão duro dá dores de costas, dá.

domingo, 22 de agosto de 2010



"Se o leitor ainda não descobriu os seus talentos, comece por se lembrar da sua infância e das brincadeiras que então lhe davam prazer. Talvez seja aí que os vai encontrar."

E assim Dr. Pio Abreu sucitou toda uma instrospecçao e reflexão que durou umas 27 horas sendo depois encaminhada para a minha prateleira (ora poderia dizer gaveta não é verdade mas prateleira é mais acessível e as coisas estão mais á "mão de semear", além disso como não consigo geralmente pronunciar prateleira, aproveito que isto é escrito e não me envergonho )
Como ia explicando foi para a minha prateleira cerebral onde estão as coisas que não devem ser mexidas a menos que haja alguma novidade de raciocinio que altere por completo as conclusões anteriores.

Pensei que ao dar vos a conhecer esta problemática poderia brotar a tal encantadora novidade de raciocínio daí a excepção à proibição de remeximento.

As minhas 27 horas de instrospecção consistiram basicamente nisto.
2 horas de recordações da infância, mais 1 hora a tirar conclusões e outra 1 hora a arranjar maneira de tornar essa conclusão um pouquinho positiva.
1 hora de conversa com a minha mãe para fazer a verificação das memórias e 30 min para tentar tornar a conclusão positiva mais uma vez.
30 minutos de dialogo de exposição com a minha irmã que consisitiram basicamente em exposição.
e os restantes minutos perfazentes das 27 horas a tentar não pensar muito nisso até decidir que ia pa prateleira.

O que acontece é que eu era um criança encantadoramente tímida cujas brincadeiras preferidas se centravam na vida familiar. A minha mãe tentou animar-me relembrando que eu gostava de encaixar peças e fazer puzzles mas o que realmente fazia a pequena Ana Sofia feliz era ficar na casa de plástico a cozinhar para o marido que chegava do trabalho. O marido era o meu melhor amigo João. Alegremente servia a comida, cuidava um pouco dos bébes e essencialmente limpava a casa, pegava no Pronto e pano e limpava tudo inclusive os movéis da casa real. Ás vezes fazia os intervalos e cantava em frente ao espelho sozinha ou atrás da porta se tivesse acompanhada.
É o que vocês estão a pensar, o meu talento passa por culinária e limpeza profissional, ou simplificando eu tenho um dom para ser dona de casa.

Não descurando estas actividades é compreeensivel que me tenha perturbado um pouco esta reflexão. É que eu (e concentrem se na profundidade desta afirmação) ,eu nem sequer tinha um estetoscópio de brinquedo.

terça-feira, 20 de julho de 2010



Cenário: Conversa com a minha mãe sobre a minha próxima estadia num parque de campismo.

Ana Sofia- Má, nós temos geleias nao temos? é que toda a gente leva, dá mesmo jeito.

Má- Oh isso é so pa chamar formigas.

Ana Sofia- Oh aumenta muito a qualidade de vida.

Má- Eu não sei como vou arranjar isso agora também.

Ana Sofia- Nós não temos? Eu lembro-me que levava quando ia com o Sr Padre ( com isto refiro me às viagens e visitas com o ATL).

Má- Oh mas a tua avó há muito tempo que não faz, não sei se ela está disposta agora a ter esse trabalho.

Ana Sofia- Oh Má de que raio estás a falar? Eu tou a falar das malas para por as coisas frescas.

Má- Das geleiRas? É geleira não é geleia.

Posto isto a minha irmã que se encontrava nas redondezas começa a rir-se desenfreadamente sendo imediatamente acompanhada pela minha pessoa.

O que tem maior poder piadético? A minha subtil delecção da letra R e consequente confusao semântica? Hummm. Não.
Inclino-me bem mais para a ingénua crença da minha Mãe no importante papel das geleias na vida nos parques de campismo.

É que eu nunca sequer gostei de geleia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mapa, Pai e Pão c/ manteiga




Ela tem talento.

Hoje vi a minha irmã receber um singelo prémio de segundo lugar num concurso de literatura da terrinha, um concurso aberto a todas as idades note-se.

Observei-a no palco a falar da sua "obra", ela não gosta que digam livro.
Pensei Ela tem talento.

Acabei de ler o conto e penso Ela tem talento.

Não ter nenhum talento é a minha mais recorrente e quase intemporal frustração.

O talento dá tudo, dá a diversão, o entusiasmo, a novidade, e até a estabilidade financeira se for rentável. Deve ser das melhores sensações saber que se tem aquilo connosco, aquele jeito inato, é um mapa, um pai e um pão com manteiga ao mesmo tempo, é mesmo isso.

Fico preenchida de imaginar isso para a minha irmã mas depois completamente insertada quando penso que não tenho nada disso.

Não há nada que eu faça particularmente bem, andei os últimos anos a pensar que era analisar pessoas mas nem isso.

Sou boa em retórica mas nada demais. Não tenho habilidade nenhuma acima do normal que possa aproveitar. Nem cantar, nem dançar, nem representar, nem comunicar, nem escrever, nem pintar, nem jogar xadrez, nem correr ( ou qualquer outra actividade física/ desporto, aliás aí ate estou abaixo do normal), nem avaliar, nem criar, nem sentido de estética aproveitável, nem contar anedotas, nem decorar coisas, nem truques, nem cozinhar, nem me contorco toda, nem montar circuitos eléctricos, nem raciocínio matemático, enfim, nadinha.

Atenção a questão aqui não me é inferiorizar, eu sei que tenho valor enquanto pessoa e sou de qualidade mas talento mínimo detectável não possuo.

Notar um talento não aproveitado é angustiante para mim, mais valia arrancarem me as unhas dos pés ou regarem me com óleo quente de fritar rissois.

Meus contemporâneos se sabem que têm um talento, explorem-no.

Entretanto eu tento descortinar um exemplo concreto ou alguma ideia irrefutável que me faça acreditar que é possível eu sentir realização sem o tal talento ou então... (e sinto-me inexplicavelmente atraída por esta opção) adopto tranquilamente a fé em que o meu talento é de expressão tardia.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Situações



Cenário : Pessoas com algum alcoól no sangue. 2 grupos, um maduro, o outro ...nós. Individuo do grupo maduro pega na guitarra e duas mulheres resolvem juntar as suas afinadas vozes no que resultou numa música brasileira de favela (admito).

João- Isto é do Rei do Gado não é?

A ligação entre as coisas não está presente na minha cabeça.

Maria:
O Uga Uga, que tinha o índio loiro.

Ana Sofia e Maria: Papaué ué ué UGA.

Mais uma vez desconheço ligação.

Ana Vaz: A Torre de Babel, eu gostava muito.

João:
O Kubanacan.

Ana Sofia. Eu comprava as bandas sonoras das novelas todas.

Pois. Ligação..Continuo sem saber.

João: A Laura enervava me tanto.

Bruno: Ai eu adorava. Era mesmo vaca, um papelão.

Ana Sofia: E o Renato? Eu adorava o Renato. Da revista sabem?

(...)

Alice: Canta do ínicio.

Ana Sofia: De mão atadas, de pés descalços, sem voc~e meu mundo andava de pernas pro ar....

Alice:
Tou nem aíiii tou nem aíiiii.

Ana Sofia: e aquela mesmo porca. "Eu vou deixar a porta do meu quarto aberta, caso você queira voltaar"

Apenas sei que entre o fim e o ínicio desta situação deve ter passado sensivelmente uma hora. Uma hora e telenovelas da Globo.

Durmo ou escrevo?

Esta é capaz de ser a melhor dúvida de sempre tendo em conta o que foi o meu último mês. Querer queria mas a verdade é que não posso dizer que foi relativamente fácil e passou rápido.

Mas nada melhor que uma época de exames como esta para dimensionar as coisas.

Raios, como soube bem visitar o padroeiro da minha terra com a minha mãe e ver as mulheres lutar pelos cravos, ajudar a minha tia pôr a mesa no terraço para a família, ouvir o "ai minha tricana" da minha avó, o meu afilhado a mostrar me as plantações dele, o meu pai aflito para por a tv lá fora sintonizada na final do Mundial, o sentar e comer com calma e falar da loucura das pessoas e de doenças e tratamentos para cancro mas nem achar assim tão mau. De realçar o típico telefonema de serviço para o meu padrinho a interromper o jantar que só teve piada.

Voltar a ouvir as teorias da Maria, voltar a conduzir pro café de sempre tagarelar, voltar a rir me do nada com a minha irmã, voltar a sacar músicas e morrer de susto com o ataque viral ao meu querido pc.

Mais, voltar a olhar pro tecto porque me apetece, andar na rua sem nada na mão e sem ter que estar a horas em nenhum sítio, escrever e, claro, dormir.

Não é errado valorizarmos as coisas quando elas nos faltam, é só natural, e um natural bem bom.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Jaula Humana


Medo é talvez o maior limitante emotivo da nossa espécie.

Fora as tretas, toda a gente sabe quando está a sentir medo, o objecto desse medo e porque é que o está a sentir. Isto no dito medo normal não incluindo o medo a palavras grandes, de igrejas, de jantares ou nuvens.
Sinceramente, a lista de fobias em constante crescimento que volta e meia aparece numa revista ou noutra é uma anedota.
Ai eu tenho medo de falhar - Kakorrhaphiophobia. Sim, acabamos de descobrir uma patologia comum a todo o ser humano.
Ai eu tenho medo de terramotos e tornados - Lilapsophobia.
Ai eu tenho medo da dor. - Algiophobia
Ai eu tenho medo de uma doença cerebral - Meningitophobia.

Enfim, já agora eu teria além destas, Apiphobia e Electrophobia, respectivamente abelhas e electricidade. Considero os meus receios racionais na medida que sofri um ataque palpebral repito na pálpebra, de uma abelha sem motivo nenhum e sou extremamente proprícia à condução de electricidade mesmo que a sensação que me é oferecida não seja do meu agrado.
Tenho medo porque sei o possível desfecho e sei que é mau e não quero.

O medo protege-nos e nós queremos isso, é um luxo dos tempos de hoje. Se o Homo Erectus tivesse o medinho racional de ser comido pelos animais, não comia ele e chapéu para nós.
O Homo Sapiens Sapiens só conhece esta situação envolve risco = medo.

Ninguém gosta que o pior aconteça, seja de se magoar, de ficar doente, de ficar incapacitado, de morrer. Mas estes não são os medos que nos caracterizam e que nos corroem e provocam involução a meu ver.
Nós facilmente nos atiramos para o chão para receber uma bola, andamos à chuva, fumamos e aceleramos e fazemos piões mas um convite para jantar, uma candidatura a um emprego que ambicionamos, um desabafo sincero, uma partilha de uma ideia nossa,um reconhecer que erramos, uma exposição dos nossos gostos e orientações, o novo e desconhecido, estes sim conseguem apertar nos o estômago.
Tudo em nome da nossa "segurança". Quem é que se pode achar seguro quando sabe que algo o poderia fazer feliz mas não o faz porque também o pode tranformar num farrapo humano?
Que seguro? Está é triste e deprimido e frustrado.
Não intriga como é que nos acobardamos perante possiveis cenários negativos passíveis de intervenção, modulação e aprendizagem e apresentados os irreversíveis e intocáveis nós estamos tranquilamente confortáveis?

Medo é insegurança, é opressão, é frustação, é depressão, é estagnação, é limitante, é atrofio.

sábado, 19 de junho de 2010

O real Azar não trapalhão

Não acredito em sorte e azar. Acho que o pensamento positivo atrai coisas positivas mas isso é um pouco lógico. Imaginar algo a acontecer faz com que involuntariamente tomemos atitudes para que isso aconteça porque queremos e sabemos exactamente o que queremos.

Ás vezes exagero e acho que tou com azar porque bato com o dedão no pé na esquina da cama e depois vou a tentar por o telemóvel a carregar e o carregador sai da ficha e eu tento mas não acerto nos buracos e entretanto o telemóvel cai ao chão e abre. E resolvo estas situações, viro-me prendendo o fio do carregador então o telemóvel volta a cair e o carregador a sair da ficha. Mais, ainda há tempo para bater com a cabeça na estante.

É muito exagerado achar isto azar....

Azar é quando várias situações negativas com probabilidade ínfima de acontecer acontecem e com o agravante de serem pouco espaçadas no tempo ou mesmo numa bela sequência. Acrescento que essa probabilidade não pode aumentar muito com a trapalhice/descoordenação motora de cada um - aqui têm o que penso para mim quando acho que sou azarenta.

Azar? Azar seria se no dia seguinte conseguisse deixar cair a chave de casa na frincha do chão do elevador ficando esta perdida para sempre num poço fundo.
Vá, se a única pessoa com quem divido a casa se tivesse esquecido desta em casa apesar disso nunca acontecer é que era mau.
E se fossem 4 da manhã e ainda tivesse intenções de estudar? UI.

Pois, isto aconteceu.

Não é de admirar que já em casa (e isto porque existem bons samaritanos que sabem subir muros e trepar janelas) com centenas de coisas para estudar uma pessoa se ponha a ouvir a banda sonora do Moulin Rouge.

Pronto, pode não parecer muito a propósito mas tudo tem ligação, acreditem.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

encardida cara lavada





Ás vezes a minha cabeça proporciona coisas engraçadas.

Bem estava eu a lavar a cara, eu gosto de lavar a cara, não é só um acto de higiene mas não me quero perder por aí.

O que aconteceu foi que, de repente, ao olhar a minha limpa face lembrei-me da minha avó que me dizia que era uma pessoa de cara lavada porque não escondia nada, mostrava-se tal como era e agia conforme.

Depois surjiu me na imagem alguém a dizer "Ai ele veio ter comigo com a maior cara lavada, não tens noção".

No momento seguinte outro take, agora com uma moça. "Andar na rua de cara lavada? Ui nunca"

Em 30 segundos a minha cara livre de sujidade levou me a uma inevitável e inesperada reflexão.

Ora uma cara lavada consegue estar associado a autenticidade, transparência e sinceridade; a "lata", insensatez e arrogância e ainda a vaidade e falta de primo pelo aspecto físico.

Isto tem piada.
Será que podemos procurar uma lógica nisto tudo?

A sinceridade é muitas vezes confundida com arrogância e "lata".
A autenticidade é insensata para muitos.
A vaidade não se enquadra porque é no sentido estrito mas se afundarmos vem a sobrevalorização do aspecto físico, a síndrome da imagem que passamos e o teatro de personalidade que isso acarreta.
Cá está. Falta de transparência e autenticidade.

Consegui mas sim foi com uma escavadora das grandes.

Enfim até vale a pena pensar nisto durante a higiene facial.

terça-feira, 15 de junho de 2010



Há dias em que por acharmos que havia um comboio às 9.30 e afinal só havia às 11 horas ficamos com tempo em branco, aquele tempo que supostamente nunca imaginaríamos que iamos ter livre porque não era suposto mas ele aparece e pronto.
Esse tempo irrita mas é bom porque não foi previsto e com os meios que dispomos no momento vamos espontaneamente preenchê-lo.

É nestes preenchimentos espontâneos imprevistos que surge mais de nós, do que somos e como estamos.

Ahah Filosofia.

segunda-feira, 14 de junho de 2010


"Change is a wonderful thing. Look, you know how subatomic particles don't obey physical laws? They act according to chance. chaos. coincidence. They ran into each other in the middle of the universe somewhere and bang! Energy! We're the same as that. That's the great thing about the universe: unpredictable. That's why it's so much fun."


Tony x)

Opinião bem formulada sobre companhias aéreas de low cost

O tenebroso chiar


Um barulho muito forte invadia a despensa. Era vento, mesmo forte, ah e agora estava a chiar, de uma maneira terrivel nunca antes ouvida.

Se calhar é um mini furacão, vou sair daqui - pensa Ana Sofia reflectindo sobre quanto o clima tem poder sobre ela.

Até que algo surge, uma luz. Sim, a cafeteira está ao lume há 20 minutos.


Acontece.


domingo, 6 de junho de 2010


Sempre achei que ser criativa e imaginativa era um espécie de benção.

Admirava todos aqueles que criavam algo que nunca tivesse sido visto, que não se assemelhasse com nada do mundo real. Seja os artistas em geral com o abstrato, com aquelas obras de arte moderna que supostamente os leigos nao entendem como um ferro dos antigos com pregos espetados que representavam coisas espectaculares. Os que só tinham jeito para pintar, pintavam o que viam e acrescentavam elementos para o por mais bonito, feio, triste, alegre, e assim.

Achava, ingenuamente, que os grandes escritores eram os que conseguiam criar um mundo de raiz e fazê-lo ter sentido e depois havia os medríoces que exploravam o quotidiana e o mundo que temos.

Já não penso assim.

Retratar o que nos rodeia seja num pintura, escultura, história, poema, filme condignamente é de imensuravel valor.

Condignamente é quase impossível definir admitamos mas o que eu quero dizer é tipo representar a realidade fazendo com que ela tenha exactamente o valor que tem e com que transmita exactamente o que tem de transmitir, com a bela complexidade que lhe é inerente. Sim, porque não me venham com a simplicidade, simplicidade não é realidade, associar simplicidade associado ao mundo e todas as suas conexões é impossível.

É retratar as coisas não como todos as observam no geral nem como o artista observa nem de forma a que quem ve veja o que ele queria que vissem.

Acho que o magnifico aqui e que quase ninguém fez é fazer o retrato do real que chegue a cada um de nós individualmente exactamente como deveria chegar e assim revelando parte da nossa "relação global". (Acabei de inventar um conceito)

Já não sei será mais desafiador e evoluído, se a criação de um mundo novo ou esta transmissão adequada do que temos.



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quarta-feira, 2 de junho de 2010


The best lack all convinction, while the worst are full of passionate intensity.

Lamento informar que representar não é falar




-Ai ainda me lembro de quando eras Trolha.

- Trolha não. Pedreiro.

- Ou isso. Olha pra tua fillha, não ves como ela está deprimida, desamparada, desconsoladaaaa, coitadinha.

Telenovelas TVI, uma nova que tem como protagonista uma suposta rapariga bicho do mato. E como será que eles criaram tal personagem? Vestiram uma rapariga com saias subidas e compridas no corte clássico, tops de alças simples, e casaquinho de malha simples direitos (estilo que por acaso é uma das modas este ano) e puseram na a andar à macaca e a apontar uma espingarda a todos os que cruzam a sua selva.

Cada vez mais reparo que tudo nas telenovelas tem o objectivo de esconder a inexistência de talento para a representação por parte dos participantes.


Sim, o objectivo primário é criar histórias encantadoras que as pessoas seguem, fazendo crescer nelas o entusiasmo que a própria vida teima em não lhes fornecer mas isto eu já nem critico.


Da próxima vez que virem uma novela seja de origem portuguesa ou brasileira reparem nas seguintes situações.


- Não há silêncios quando estão em cena as personagens.


- Os sentimentos são todos descritos detalhadamente. "Estou deprimido" e "Estou mesmo bem disposto", "Não ando a conseguir olhar te nos olhos"


- Jogo de olhares quase não existe.


-Não param sentados nem de pé a conversar, movem se de um lado pro outro constantemente (este caso mais nas portuguesinhas).


- Se alguém está sentado e entra uma pessoa na divisão este levanta-se.


- Personagens histéricas são predominantes.


- Não há meios termos nem mais ou menos ou seja não há normalidade.


- A maneira geral de demonstrar paixão é arrancar a roupa muito rápido e com força. ( e nem aí permanecem em silêncio)


Reparem nisso. Isto tudo é porquê? Porque os actores não sabem representar, não conseguem transmitir nada com expressões e linguagem corporal portanto têm de tar sempre a falar e a mexer se que é o que é fácil.


Por conseguinte, ao quererem transmitir tudo no diálogo tornam-se todos histéricos e incapazes da tal coisa vulgar e ao fim de contas real.


Todas as personagens têm de ter um traço único de personalidade bem marcado que as defina, ou são más ou são boas ou são felizes ou uns coitadinhos, ou têm o casamento perfeito ou estão a divociar-se, ou são puritanas ou umas badalhocas. É é assim.

O triste é que como é sempre assim e as pessoas gostam assim, isto não tende a melhorar. A qualidade dos nossos actores nunca será explorada, ja não há distinção. E pensar que esta peste já está a passar para o mundo cinematográfico, assusta me um pouco.


Mas vá, uma prece para que os grandes monstros da realização cinematográfica perdurem e "procriem".

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Perseguição à infantilidade

Tou farta de ouvir irónicas críticas a uma série de bandas de indie rock e pop da actualidade.

Coisas do género "É música para crianças", "Eles usam 2 instrumentos e repetem a batida", "Regem-se pelo básico da música", "Captam a atenção dos leigos em termos musicais"

Tenho a dizer meus amigos que isto me enerva, o que não é muito comum na minha atitude relaxada.

Mas porquê tanta objecção à simplicidade neste mundo? O que é que a infantilidade tem de tão mau assim?

Não vejo qual é o problema de uma música utilizar instrumentos rudimentares, se consegue provocar algum tipo sentimento positivo não pode ser considerada má.

E é que quanto a mim, o indie é o estilo musical que mais interfere com o meu estado de espírito. Transmite me positividade, criatividade, energia, impulsividade e aquela coisa do "tudo é possível".

Imagine-se que uma das bandas incluídas nesta clara guerra à imaginação, Vampire Weekend, só por acaso uma das bandas que mais aprecio.

Não vou dizer que o novo album não parece uma orquestra com trompetes e pandeiretas e que não associei aqui e ali uns sons que me lembraram algumas canções que cantava quando ainda me conseguia esconder atrás da porta...mas não deixam de ser diferentes de tudo o que já ouvi.

E não deixam de me por contente e com vontade de saltar.

Parem de rotular tudo o que é infantil como menos evoluído.

Se nós mantivermos a mente sem fronteiras que temos quando tudo é novo no mundo para nós, o mundo nunca deixará de ser novo para nós.

e pronto agora uma das minhas adoradas sequências.

novo leva a curiosidade que leva a procura que leva a entusiamo que leva a motivação que leva a boa disposiçao que leva a optimismo que leva a felicidade e bem estar no geral.

e reparem que podia ser interrompida em qualquer passo intermediário que continuaria a passar para a recompensa final. :)

domingo, 30 de maio de 2010

Agente Funerário - Mau não é


É a realidade, são estas horas e esta é a 1º coisa que escrevo num blogue apesar de já saber escrever há 14 anos, nem é bom. É que eu devia explicar o nome, o porquê deste momento e assim não é? hmm não tenho condições ambientais.

Ora temos de admitir que a atitude das pessoas para com alguém que enterra pessoas não é assim muito amistosa, talvez seja normal visto que não é propriamente um agente de viagens e ter de recorrer aos seus serviços é...digamos...chato. Acontece que eu não partilho desta atitude, aliás acho fixe ser Agente Funerário.

Sou sádica? Nao vem pro caso. O facto é que conheço um profissional destes muito bem e adoro tudo o que ele representa.

Introduzindo. Cena de pancadaria em plena estação de Vizela. Mulheres aos gritos. Comentário dele: Morreu alguém? ahahah Não? Então vou pro café"

Sim ele querer queria ser arquitecto, é verdade, mas ficou com o negócio da família. Irrita me casos de talento desperdiçado ( esta dissertação fica pa outra altura) mas não o considero um.

Ele extravazou toda a sua criatividade, habilidade manual, sensibilidade para a Agência fazendo com que fosse impossivel a concorrência abrir as portinhas na zona e tornou a uma das mais conceituadas do Norte.

Viver pro trabalho é deprimente. Ele nao faz isso.

Tanto trabalha às 5 da manhã como as 9 da noite como nao trabalha como passa dias sem dormir, a rotina dele é nao ter rotina e no meio disto tudo ele é le Bon Vivant, dos verdadeiros.

E com isto pretendo

Bom vinho. Charuto. Aguardente de 15 anos (cuja degustação me fez questão de transmitir). Poesia. Religião. Politica. Filosofia. Conversa. Conversa. Discussão. Teorias. Conversa. Amigos. E Amigos. Poesia. Aguardente.

É impossível nao passar horas a falar com ele e se ao início estranhamos que apareçam na mesa de jantar a inteligência escondida dos pretos e a capacidade que as Mulheres têm de corroer a sanidade de um Homem diariamente com jogos psicológicos que este não tem capacidade de ripostar acabando por usar a primitiva força física ( este especialmente ainda vai dar que falar) depois nao o consegues parar de ouvir, entra na tua cabeça literalmente.

Ele após o 1º dia nunca chama, é sempre chamado e vai, vai com a esposa que vive mais ou menos a vida e o descendente que canta "we no nee no educaxion" e rouba copos de champanhe pra beber de tolada, ah e assim por acaso tem 4 anos.

Ele lida com morte e perda todos os dias e consegue ser a pessoa mais competente que conheço em introduzir e conjugar prazeres em todos os campos do seu quotidiano. Possível?

Ele não teme, não reprime, não desilude, não desanima, não se priva, nunca.

Ele atira-se, experimenta, demonstra, ele cultiva-se e faz o que mais gosta, sempre.

É o que eu digo, depois disto, dá para achar mau ser cangalheiro? Opa não


P.S Não é que seja de relevância mas...

Escrito com 1 copo de aguardente e 1 bacardi em circulação impingidos pelo alvo deste texto.

Fiz 20 anos ontem x)