quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mapa, Pai e Pão c/ manteiga




Ela tem talento.

Hoje vi a minha irmã receber um singelo prémio de segundo lugar num concurso de literatura da terrinha, um concurso aberto a todas as idades note-se.

Observei-a no palco a falar da sua "obra", ela não gosta que digam livro.
Pensei Ela tem talento.

Acabei de ler o conto e penso Ela tem talento.

Não ter nenhum talento é a minha mais recorrente e quase intemporal frustração.

O talento dá tudo, dá a diversão, o entusiasmo, a novidade, e até a estabilidade financeira se for rentável. Deve ser das melhores sensações saber que se tem aquilo connosco, aquele jeito inato, é um mapa, um pai e um pão com manteiga ao mesmo tempo, é mesmo isso.

Fico preenchida de imaginar isso para a minha irmã mas depois completamente insertada quando penso que não tenho nada disso.

Não há nada que eu faça particularmente bem, andei os últimos anos a pensar que era analisar pessoas mas nem isso.

Sou boa em retórica mas nada demais. Não tenho habilidade nenhuma acima do normal que possa aproveitar. Nem cantar, nem dançar, nem representar, nem comunicar, nem escrever, nem pintar, nem jogar xadrez, nem correr ( ou qualquer outra actividade física/ desporto, aliás aí ate estou abaixo do normal), nem avaliar, nem criar, nem sentido de estética aproveitável, nem contar anedotas, nem decorar coisas, nem truques, nem cozinhar, nem me contorco toda, nem montar circuitos eléctricos, nem raciocínio matemático, enfim, nadinha.

Atenção a questão aqui não me é inferiorizar, eu sei que tenho valor enquanto pessoa e sou de qualidade mas talento mínimo detectável não possuo.

Notar um talento não aproveitado é angustiante para mim, mais valia arrancarem me as unhas dos pés ou regarem me com óleo quente de fritar rissois.

Meus contemporâneos se sabem que têm um talento, explorem-no.

Entretanto eu tento descortinar um exemplo concreto ou alguma ideia irrefutável que me faça acreditar que é possível eu sentir realização sem o tal talento ou então... (e sinto-me inexplicavelmente atraída por esta opção) adopto tranquilamente a fé em que o meu talento é de expressão tardia.

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