domingo, 26 de setembro de 2010

Ana Sofia e os Animais



Era uma vez a Ana Sofia que descobriu o mundo com animaizinhos mas estes não lhe interessaram muito. A maioria dos meninos e meninas abraçavam os cãezinhos e faziam lhe festas, Ana apenas dizia "com licença cãozinho" (sim é verídico) quando estes se atravessavam no seu caminho.

A avó tinha um cão chamada Aramiz, era um minorca, então Ana colocava-o no carrinho e passeava-o obrigando-o a comer farinha de pau. Foi a primeira espécie de relação com um animal. Aramiz morreu de insuficiência cardíaca. Depois o padrinho arranjou uma dálmata, a Lady. Era esquisita, gostava de comer cascas de banana e pacotes de manteiga Mimosa de uma só vez. Ás vezes atacava conhecidos, devia ter transtorno bipolar. A adolescente Ana Sofia só lhe dava bolachas e em momentos de loucura contava situações do seu dia, nunca lhe tocava.

Entretanto a família Machado tentou estrear-se nos animais domésticos.
Primeiro foram os periquitos, não correu bem.
Do primeiro casal, morreu a fêmea, o marido ficou desgostoso e ganhou crostas no bico. Arranjou-se companhia, ele não melhorava. Começaram a morrer continuamente. Um dia descobriu-se que o marido era uma mulher e matava todos os companheiros. A primeira morte desgostou Ana, depois achava-os chatos e mal cheirosos.
Próxima tentativa: peixinho. Era o Óscar (que original). Ana Sofia não lhe ligava nenhum, um dia chegou a casa e soube que ele tinha tentado suicidar-se saltando do aquário para o tapete. A Mãe salvou-o mas ele morreu 3 dias depois.

Até que um dia o pai resolveu que precisávamos de um cãozinho e comprou uma Serra da Estrela, a Luna. Quando era muito pequena tinha a sua piada e brincava com ela e levava lhe comidinha, Ana achava mesmo que um dia ia levá-la a passear sozinha mas a Luna traiu-a. Um dia de manhãzinha deitou os dentes às meias calças e Ana começou a chorar, chorava chorava, implorou que parasse, que a estava a magoar, mas Luna não quis saber e aí Ana percebeu que Luna não tinha consciência e tinha alma assassina.
Não dava para confiar nela, nunca mais lhe falou, ainda hoje nem se lembra que tem uma cadela.

A Lady morreu de ataque cardíaco, coitadas daquelas artérias. Luna ainda está viva mas só serve para uma breve apresentação "ah sim temos uma cadela Serra da Estrela" quando se mostra a casa a alguém e ,por acaso, chega-se perto daquela parte do jardim.

Hoje em dia, Ana não tem qualquer relação com um animal nem sente vontade de ter (às vezes ainda surge o desejo de ter um amigo cavalo mas passa quando pensa na queda que a tornaria paraplégica). Tem medo de gatos devido a uma ataque nada amigável, são os mais traiçoeiros de todos. Apesar disto tem em casa uma colecção de miniaturas de todas as raças de cães incluindo os cachorros respectivos que a Avó comprava e ela gostava. E tem o estranho hábito de ver um animal na cara das pessoas que conhece e adoptá-lo como alcunha quando tem mais confiança.
Ani Javali e Catarina Avestruza são as mais recorrentes mas também há a hipopótama, a foquinha e assim.

Fim.

1.1 Conclue sobre a personalidade e futuro da Ana através da história.
- É fria e pouco carinhosa.
- É traumatizada.
- Vai ter problemas em constituir família.

A última opção até é legítima, porque a vida familiar perfeita está sempre ligada a uma domesticação animal.
Ora mas o que eu acho é que é resultado do medo de irracionalidade e do ter de basear tudo na dimensão emocional e primitiva das relações. Aliás esta é bem capaz de ser também a razão por detrás dos meus problemas de relacionamento humano.
E pronto.
Digamos que se há que fazer um esforço, será em prol da própria espécie.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Semântica Ilusionista


Gosto de pensar no sentido das palavras e porque é que foram feitas assim.

As que começam por "des" são um pouco incoerentes.
Supostamente quando juntamos o prefixo "des" era para dar o sentido contrário da forma verbal adiante.

Como desocupar, desfazer, desatar, desentender, desligar, desconectar, desculpar
mas depois existe desafiar, destacar, despoletar, designar que já nao funcionam assim.

No outro dia pensei em "desiludir", esta tem que se lhe diga. Ora desiludir, é não corresponder às expectativas, ao que era suposto.
Porém visto se enquadrar no primeiro grupo de palavras que mencionei, o grupo dos contrários é literalmente "deixar de iludir".
Ilusão é mau, desilusão deveria ser bom, mas é mau e bastante mau.

Desilusão consegue ser mesmo desgastante a nível emocional porque parte de algo que considerávamos bom de forma sólida.

Por outro lado se pensarmos que uma desilusão é descobrir um falso bom, então é positivo porque ninguém precisa de falsos bons.

Porque é que nunca dizemos "tu iludiste-me", "fui iludida" e dizemos sempre "desiludiste-me tanto"?
O centro da questão é a ilusão em si.
Ninguém deve iludir ninguém nem ninguém deveria se deixar iludir.

Ao queixarmo-nos da desilusão, até parece que a ilusão é mel. Só se for mel estragado. Tenho a impressão é que nós gostamos de ser iludidos, às vezes, passeamo-nos nas ilusões tal como nos sonhos e aspirações. Até gostamos de ilusionistas. Precisamos disso. Há sempre coisas más de que precisamos na verdade.

Proponho a todos vocês uma mudança de vocabulário. Se alguém ou algo vos der as peças para construírem um palacete e depois vierem a descobrir que era para um quintal, digam

"Tu iludiste-me e ainda bem que tive uma desilusão"

Se vamos deixar de nos sentir a nadar em água choca com lodo e uma lampreia a tentar esganar-nos? Não. Não mas assim está correcto e ter as ideias correctas é bom para a mente.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Pretensão Inevitável

Estava eu a usar toda a sensibilidade artística existente ou não em mim para entender a obra dos melhores coreógrafos de Dança Comtemporânea do Mundo quando a voz crítica madura sentada ao meu lado se ergue no meio daquela sonolenta música.

-Que pretensiosos.

Nunca uso esta palavra e comentar assim no meio de um espectáculo não é muito bonito. Ainda assim, pretensioso foi mesmo bem utilizado.

Eu acho que o que acontece com os topos de gama das várias artes é mesmo isto. Ganham pretensão. Sabem que são os melhores então deixam de dar o melhor.
Tentam fazer algo diferente do que o que os distinguiu como melhores e ser igualmente melhores nisso.
Raramente conseguem mas como têm o estatuto e o passado brilhante continuarão a ser admirados e seguidos.
Isto até alguem fizer algo inovadoramente melhor naquela área.
O que não é impossível. É bastante possível aliás.
E aqui está toda a problemática de ter o estatuto de melhor.

Eles eram coreógrafos. Dançavam espectacularmente bem. Deviam dançar. Mas não dançaram. Quase não se mexeram. Efeitos visuais interessantes, uma multimédia muito bem organizada mas não transmitiram nada. Não percebi a história nem sei se havia. Não houve grandes variações de ritmos. Mesmo chato de ver.
Se realmente mostrassem as capacidades e se movessem e expressassem uma série de emoções através da dança toda a gente na sala teria adorado.
Por outro lado, quanto tempo demorará até surgir alguém que o faça tão bem ou melhor que eles? Que tenha,vá, um simples movimento nunca visto que transforma tudo?

E isto acontece com os compositores, pintores, artistas plásticos, arquitectos, etc

Mas será que podemos condená-los por tentarem inovar e proteger o lugar? Para não falar do quão entediante é fazer sempre o mesmo. É uma pretensão inevitável.
Condenar não consigo. Mesmo que o anúncio do Fairy passe a conseguir captivar mais do que eles.
Eu faria o mesmo, embora que, por razões ja vossas familiares, a probabilidade de tal problema surgir na minha existência seja um pouco igual à de descobrir que pertenço à Família Real Inglesa.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nunca

Confirmo a assustadora teoria de que enquanto seres humanos é impossível identificarmos as coisas que nunca faríamos.
Não dá.
Efectivamente não dá. Nós imaginamos um cenário e uma série de acontecimentos e prevemos a nossa reacção conforme o que conhecemos de nós sendo mais fácil dizer o que eramos incapazes de fazer.
Agora, mesmo que algum dia realmente essa situação acontecesse igualzinha ao que tinhamos projectado na nossa cabeça, as pessoas, o sítio, o tempo e afins ( note-se a improbabilidade disto) nós enquanto um todo não seríamos a mesma pessoa que tinha projectado aquele cenário. Não estou a dizer que estamos constantemente a mudar de personalidade e a alterar as características mas o facto é que somos extremamente mutáveis. Mutáveis simplesmente porque estamos em contacto com o mundo. De dia para dia, com todo esse contacto, nós alteramos e moldamos a nossa mente. E imperceptivelmente atitudes, visões, medos, sentimentos e aspirações acompanham o dia a dia, agarram-se e soltam-se. Há dias em que há um maior impulso tipo um jacto de super cola e uma destas agarram-se firmemente, mas na maioria das vezes o agarranço é leve e efémero. Pode, contudo, surgir um padrão que pela persistência vai escavando a sua forma, até que simplesmente encaixa e o agarranço deixa de ser necessário.
Vagueei um pouco. O meu ponto era a impossibilidade de previsões comportamentais em situações tipo, era isso.

Contudo e não contrariando tudo o que disse anteriormente...
É absolutamente necessário que tenhamos presente o que nunca faríamos e que pensamos e mesmo que exponhamos os nossos "Eu nunca", "Eu não era capaz", "Eu não ia suportar".
Invoco como defesa desta teoria a sanidade mental. E chega. Os agarranços implicam algo para agarrar, não querem superficíes lisas e escorregadias querem relevos e ângulos. Tem de haver uma construção mental harmoniosa com uma arquitectura equilibrada que facilitará ou dificultará as diferentes mudanças e adaptações. Sem construção mental ou com uma construçao mal feita, há bastante desequílibrio e mais imprevisibilidade e mais irracionalidade.

Só ontem estive perante 3 situações em que o "eu nunca" esteve presente e para dar o exemplo garanto-vos :

- Eu nunca usaria uma pessoa para atingir determinada posição, enganado-a e deixando-a na miséria.
- Eu nunca arriscaria a minha vida desnecessariamente.
- Eu nunca mataria sem ser com propósitos de defesa, da minha vida ou de outros.

E isto está na minha arquitectura.


P.S. Este tópico é delicado porque mexe mesmo com a minha construção mental.
Perdoem a confusão.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Intrigante Negócio


Os comerciantes de intervenção, ou seja os que efectivamente se dirigem a nós e nos tentam atrair e convencer a comprar algo que maioritariamente nem sabiamos que queríamos pelo simples facto de que nem sequer precisamos são umas pessoas peculiares, no mínimo. Excluindo os chatos do Barclays, esses são só irritantemente insistentes.

Fascinam-me muito os cânticos, versos, todo o vocabulário extremamente diversificado dos homens das bolas de berlim e bolachas americanas. Porém, tenho de confessar que os homens das rosas detém o poder de suscitar em mim as mais variadas questões.

Porquê rosas? Qual a probabilidade de alguém num contexto social normal querer, de repente, oferecer uma rosa de plástico? Porque não vender as outras milhares de coisas que lhe garantiam maior sucesso comercial?
Porque é que são todos indianos? Porque é que os deixam entrar nas discotecas e cafés? Porque é que a maioria vem acompanhada de um pato que faz um som super irritante?

Nos últimos dias pude aumentar o meu conhecimento ou desconhecimento neste assunto.

Descobri:
1º Eles também vendem certas substâncias. Atenção, não por experiência própria.
O que me levou a pensar que talvez houvesse uma certa palavra ou frase chave para que o outro negócio se efectue e que há uma possibilidade (remota) de obterem um bom rendimento usando este disfarce para o tráfico.

2º Existem mulheres neste negócio. Mulheres de etnia cigana com uma muito maior capacidade interventiva e manipuladora. Recorrem a contactos brutos que roça na agressão física não deixando de parte a violência psicológica ridicularizando e expondo o homem que não adquire o produto com sábios dizeres populares como "Homem forreteiro é um cagão, chega a casa e tem de f**** à mão"

Pois e o que é que eu concluí com tamanho conhecimento e posterior reflexão? Os vendedores de rosas são intrigantes.
E sim sim, o ser original, destacar-se, sobressair-se continua a ajudar ao sucesso, normalmente.

sábado, 4 de setembro de 2010

E o chão duro dá dores de costas, dá.

É dito que ninguém vive sem certezas, que precisamos de coisas seguríssimas, coisas das quais em tempo algum recebamos um "não é assim", "não está aqui" ou um terrível "não existe".

Ninguém aprecia que uma certeza passe a incerteza de modo geral, mesmo que nao gostássemos lá muito das certezas. A validade das certezas não se prende com o conteúdo positivo ou negativo, mas sim com a tranquilidade de espírito e segurança subjacentes. Além disso elas sao uma almofada bem confortável seja qual for o racicionio processado na nossa cabeça.

Não posso deixar de pensar que a minha cabeça é uma masoquista dos diabos que prefere o chão duro. Engenhosamente ela pratica a conversão certeza-incerteza, controlando inclusive os actos para atingir esse objectivo. Mais, ela chega a gostar da certeza e precisar dela mas quer derrubá-la, é como provocar um terramoto para provar que um edíficio não é muito seguro e assim obrigar a que se o reerga com uma construção optimizada. O que ela não percebe é que nem sempre há fundos nem optimizações a efectuar e a reconstrução não se verifica.
E o chão duro dá dores de costas, dá.