terça-feira, 20 de julho de 2010



Cenário: Conversa com a minha mãe sobre a minha próxima estadia num parque de campismo.

Ana Sofia- Má, nós temos geleias nao temos? é que toda a gente leva, dá mesmo jeito.

Má- Oh isso é so pa chamar formigas.

Ana Sofia- Oh aumenta muito a qualidade de vida.

Má- Eu não sei como vou arranjar isso agora também.

Ana Sofia- Nós não temos? Eu lembro-me que levava quando ia com o Sr Padre ( com isto refiro me às viagens e visitas com o ATL).

Má- Oh mas a tua avó há muito tempo que não faz, não sei se ela está disposta agora a ter esse trabalho.

Ana Sofia- Oh Má de que raio estás a falar? Eu tou a falar das malas para por as coisas frescas.

Má- Das geleiRas? É geleira não é geleia.

Posto isto a minha irmã que se encontrava nas redondezas começa a rir-se desenfreadamente sendo imediatamente acompanhada pela minha pessoa.

O que tem maior poder piadético? A minha subtil delecção da letra R e consequente confusao semântica? Hummm. Não.
Inclino-me bem mais para a ingénua crença da minha Mãe no importante papel das geleias na vida nos parques de campismo.

É que eu nunca sequer gostei de geleia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mapa, Pai e Pão c/ manteiga




Ela tem talento.

Hoje vi a minha irmã receber um singelo prémio de segundo lugar num concurso de literatura da terrinha, um concurso aberto a todas as idades note-se.

Observei-a no palco a falar da sua "obra", ela não gosta que digam livro.
Pensei Ela tem talento.

Acabei de ler o conto e penso Ela tem talento.

Não ter nenhum talento é a minha mais recorrente e quase intemporal frustração.

O talento dá tudo, dá a diversão, o entusiasmo, a novidade, e até a estabilidade financeira se for rentável. Deve ser das melhores sensações saber que se tem aquilo connosco, aquele jeito inato, é um mapa, um pai e um pão com manteiga ao mesmo tempo, é mesmo isso.

Fico preenchida de imaginar isso para a minha irmã mas depois completamente insertada quando penso que não tenho nada disso.

Não há nada que eu faça particularmente bem, andei os últimos anos a pensar que era analisar pessoas mas nem isso.

Sou boa em retórica mas nada demais. Não tenho habilidade nenhuma acima do normal que possa aproveitar. Nem cantar, nem dançar, nem representar, nem comunicar, nem escrever, nem pintar, nem jogar xadrez, nem correr ( ou qualquer outra actividade física/ desporto, aliás aí ate estou abaixo do normal), nem avaliar, nem criar, nem sentido de estética aproveitável, nem contar anedotas, nem decorar coisas, nem truques, nem cozinhar, nem me contorco toda, nem montar circuitos eléctricos, nem raciocínio matemático, enfim, nadinha.

Atenção a questão aqui não me é inferiorizar, eu sei que tenho valor enquanto pessoa e sou de qualidade mas talento mínimo detectável não possuo.

Notar um talento não aproveitado é angustiante para mim, mais valia arrancarem me as unhas dos pés ou regarem me com óleo quente de fritar rissois.

Meus contemporâneos se sabem que têm um talento, explorem-no.

Entretanto eu tento descortinar um exemplo concreto ou alguma ideia irrefutável que me faça acreditar que é possível eu sentir realização sem o tal talento ou então... (e sinto-me inexplicavelmente atraída por esta opção) adopto tranquilamente a fé em que o meu talento é de expressão tardia.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Situações



Cenário : Pessoas com algum alcoól no sangue. 2 grupos, um maduro, o outro ...nós. Individuo do grupo maduro pega na guitarra e duas mulheres resolvem juntar as suas afinadas vozes no que resultou numa música brasileira de favela (admito).

João- Isto é do Rei do Gado não é?

A ligação entre as coisas não está presente na minha cabeça.

Maria:
O Uga Uga, que tinha o índio loiro.

Ana Sofia e Maria: Papaué ué ué UGA.

Mais uma vez desconheço ligação.

Ana Vaz: A Torre de Babel, eu gostava muito.

João:
O Kubanacan.

Ana Sofia. Eu comprava as bandas sonoras das novelas todas.

Pois. Ligação..Continuo sem saber.

João: A Laura enervava me tanto.

Bruno: Ai eu adorava. Era mesmo vaca, um papelão.

Ana Sofia: E o Renato? Eu adorava o Renato. Da revista sabem?

(...)

Alice: Canta do ínicio.

Ana Sofia: De mão atadas, de pés descalços, sem voc~e meu mundo andava de pernas pro ar....

Alice:
Tou nem aíiii tou nem aíiiii.

Ana Sofia: e aquela mesmo porca. "Eu vou deixar a porta do meu quarto aberta, caso você queira voltaar"

Apenas sei que entre o fim e o ínicio desta situação deve ter passado sensivelmente uma hora. Uma hora e telenovelas da Globo.

Durmo ou escrevo?

Esta é capaz de ser a melhor dúvida de sempre tendo em conta o que foi o meu último mês. Querer queria mas a verdade é que não posso dizer que foi relativamente fácil e passou rápido.

Mas nada melhor que uma época de exames como esta para dimensionar as coisas.

Raios, como soube bem visitar o padroeiro da minha terra com a minha mãe e ver as mulheres lutar pelos cravos, ajudar a minha tia pôr a mesa no terraço para a família, ouvir o "ai minha tricana" da minha avó, o meu afilhado a mostrar me as plantações dele, o meu pai aflito para por a tv lá fora sintonizada na final do Mundial, o sentar e comer com calma e falar da loucura das pessoas e de doenças e tratamentos para cancro mas nem achar assim tão mau. De realçar o típico telefonema de serviço para o meu padrinho a interromper o jantar que só teve piada.

Voltar a ouvir as teorias da Maria, voltar a conduzir pro café de sempre tagarelar, voltar a rir me do nada com a minha irmã, voltar a sacar músicas e morrer de susto com o ataque viral ao meu querido pc.

Mais, voltar a olhar pro tecto porque me apetece, andar na rua sem nada na mão e sem ter que estar a horas em nenhum sítio, escrever e, claro, dormir.

Não é errado valorizarmos as coisas quando elas nos faltam, é só natural, e um natural bem bom.