
Já ouvi mais do que uma vez apelidarem a carga genética com que nascemos de cozinhado. A minha avó até diz "quando estavas a ser cozinhada". Também diz "que petisco que me saíste" mas isso não tem nada a ver.
Sermos um cozinhado até tem sentido pois é uma mistura não proporcional de ingredientes e pequenas variações na concepção podem alterar tanto o aspecto como o sabor do resultado final. Imaginemos toda a gente como um cozinhado, que gostamos muito, pouco ou não e estabelecemos a relação com ela conforme isso.
Os critérios mais importantes num cozinhado são:
- Sabor
- Aspecto
- Impacto na saúde
O sabor do cozinhado é subjectivo. O mesmo prato sabe-nos diferente de vez para vez, depende até da nossa disposição no dia. As experiencias passadas contam muito, podemos ter más experiencias com pratos semelhantes, ou estar farto daquele grupo alimentar.
Cada vez que temos contacto com determinado cozinhado conseguimos discernir se nos agradou ou não. Se for um sabor totalmente novo há muita gente que se assusta e rejeita. Se for semelhante a algo que gostamos, é bom e comemos e voltamos a repetir. Se tiver um impacto negativo, escolhemos automaticamente entre 2 vias. Deitamos fora porque não há mais que fazer. Ou então pensamos uma maneira de salvar o cozinhado mudando-o. É preciso ter alguma sabedoria culinária e bagagem para salvar o cozinhado. Dizer o que falta até nem é complicado.
Muitas vezes é sal, pouca gente gosta de coisas insossas. A quantidade de sal é que é um desafio, algo excessivamente salgado é irremediável, podemos disfarçar com um molhinho ou tentar juntar uns acompanhamentos que atenuem mas o excesso de sal estará sempre lá. Após a refeição ficaremos com sede durante horas e horas. Não se aguenta. O truque é juntar aos poucos.
Outras vezes está cozinhado de menos ou cozinhado demais. O cru é bom porque ainda podemos mudar facilmente, deixamos mais ao lume, esperamos. O chamado muito passado, muito cozido é irreparável, normalmente acabamos por comer mas não repetimos. O queimado não convém, dá indigestão e pode mais tarde como se sabe provocar cancro.
Há quem não goste de desperdiçar depois compensa com uma melhor refeição seguinte.
Há cozinhados que precisam de mais pimenta mas há muita gente que não tolera e fica com mucosa gástrica irritada. Podíamos acrescentar especiarias mais exóticas, mas a maioria dos cozinhados não combinam com isso.
Há acompanhamentos que fazem toda a diferença. Tantas vezes escolhemos um prato por causa dos acompanhamentos. Um arrozinho de tomate disfarça bem um bife mal temperado, o molho do arroz pode até entrar no bife e mudar-lhe o sabor. Por outro lado uns legumezinhos até podem ser agradáveis mas vamos acabar por deixar o bife no prato e não ficar satisfeitos. Podemos acrescentar um aconchegante e querido molhinho de natas e cogumelos, nas primeiras garfadas vai ser mesmo bom, mas vamos enjoar, porque natas num mau tempero não funciona. Um bom vinho empurra como costumam dizer, mas corremos os risco de nos embriagarmos e ficarmos com capacidades mentais reduzidas.
Certos pratos não necessitam de ter especial acompanhamento porque já são muito elaborados, esses são os melhores normalmente. Um arroz de marisco e um empadão. Arroz de marisco mesmo bom e também susceptivel a mudança, podemos por mais sal, molho de tomate, mais marisco, é ideal. Só não pode ser deixado á espera se não o molho vai-se e também não há grande remédio. Um empadão é mesmo bom e enche-nos bastante, mas não há grandes mudanças que podemos efectuar. Porém puré disfarça uma má carne e consegue esperar algum tempo, é paciente.
Relativamente ao aspecto, terei de recorrer à expressão "comer com os olhos", é o que muitos fazem. Mau e bom aspecto nem sempre se relacionam com o sabor. E depois junta-se a pressão social "vais comer isso? parece estragado" ou simplesmente "que mixórdia é essa que estás a comer?" ou pelo contrário "isso tem tão bom aspecto", posto isto há quem dê a provar, quem queira as coisas só para si e o próprio apreciador pode não querer provar por estar satisfeito.
Agora a saúde. É preciso variedade na alimentação para crescermos e construirmos uma barreira imunitária. No fundo qualquer exagero de determinado prato é mau, enjoa, entope-nos as artérias. E depois ficamos doentes e temos de cortar determinado grupo alimentar mesmo que nos custe. Por fim, não devemos passar muitas horas sem contactos alimentares.
Devemos tentar conservar as características fundamentais do nosso cozinhado. Mas metermo-nos num congelador, imutáveis, à espera de ser descongelados não é via. Temos de nos deixar mudar, de nos deixar ficar melhores. De ir procurando os acompanhamentos ( aqui para esclarecer acompanhamentos é tudo o que rodeia o individuo, o que vem com ele, bens/ actividades, amigos, etc) que mais combinam connosco. Não adianta pensar que um dia vamos ser invadidos pelo bolor e seremos destruídos, sim temos um prazo mas também há cada vez mais maneiras de conservação.
Acho que conseguiram ver os diversos paralelismos. Há conversas que dão nisto. Será uma teoria, teoria da Culinária Genética Humana.
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