
Isto é somos maioritariamente boas pessoas?
Muita gente perante esta pergunta hesitaria e diria "nos tempos que correm já não sei, tanto tarado e criminoso e tanta guerra." Sim legítimo.
Mas eu acho que sim.
Esta pergunta surgiu num cenário não muito propício à reflexão isto porque o mulherio decidir ver um filme ( quer dizer estavam lá 2 exemplares do sexo masculino, até estiveram 4 mas não se notava). O filme era Blood Diamonds, ou seja é um filme de coisas sérias, e nunca vimos um filme de coisa sérias em grupo. Houve quem chorasse com os trailers anteriores ao filme, quem já tivesse visto o filme e mandado comentários do género " Ele vai morrer não é? Ai já não me lembro" e até discussões sobre a importância fulcral dos jornalistas nestes conflitos com pérolas de comentários:
"Os jornalistas são os únicos que fazem alguma coisa nestas situações."
"E os médicos?"
"Os médicos são do governo vês?"
"Estás a ver o que jornalistazeca conseguiu?"
"Olha ali a pilotar o avião, também deve ser um jornalista"
Para terminar na parte mais emotiva do filme em que devíamos estar emocionados e em alta tensão,surge a frase "as tuas vacas te esperam" que nos pareceu a coisa mais engraçada do mundo. A nossa parvoíce colectiva é incrível, eu fico infectada com 3 minutos de convivência com mais de 4 elementos do grupo. Quando somos menos de 5 até conseguimos parecer adultas. Excepto quando decidimos ir só duas para a noite a perguntar preços de bebidas e a beber colas e sumos de ananás e achamos tudo muito divertido.
Bem, voltando á questão, ela surgiu num diálogo do filme e eu mesmo naquele cenário fiz uma pequena reflexão.
Ora em primeira análise o bem predomina porque diariamente há mais nascimentos do que assassinatos, há mais acções de caridade do que atentados, penso que há mais gente a oferecer do que a roubar (mas não tenho certeza neste ponto), há mais "passou bens" e beijinhos do que socos e estaladas.
É engraçado como se entranha na nossa cabeça o que é bom e mau, é tão intrínseco. Eu penso quem é que disse que isto é que é fazer o bem? Porque é que no ínicio de tudo não ficou estabelecido que o correcto era eliminarmos a concorrência?
Já repararam que os nossos antepassados conseguiram aperceber-se que precisavam uns dos outros e que eram mais felizes em grupo: "Para quê matar ou magoar aquele macaco se ele até sabe fazer fogueiras?" Mas se viesse outro grupo eles matavam porque não precisavam deles, eram simples competição.
Fomos evoluindo, os grupos tornaram-se maiores, fomos precisando de cada vez mais gente, construindo ligações de dependência com cada vez mais pessoas. Começaram a aparecer pessoas a pregar formas de vida e depois surgiu ética. Caraças isto é íncrível. Apareceu o perdão, sermos bons com pessoas que fizeram mal! Apareceu o chamado altruísmo! A noção do que é justo e injusto. As pessoas começaram a viver umas com outras e a ser simpáticas e desejar coisas boas a quem não fazia diferença nenhuma no seu bem estar. Há pessoas a arriscar a vida para salvar outras todos os dias ( aqui a adrenalina tem um peso algo relevante mas não deixa de ser fabuloso) e outras que albergam, ajudam, tratam, criam estranhos porque sim, porque gostam.
Agora não sou ingénua ao ponto de ignorar que a maioria da bondade mundial é uma bondade frágil e de conformidade que se mantém porque nos deparamos mais com boas situações e com boas pessoas e que apesar dos maus dias e dos maus episódios temos as necessidades básicas asseguradas e acesso a quem e ao que nos dá prazer ( de acordo com as possibilidades financeiras claro).
Mas e se perdéssemos tudo? Não voltaríamos a ter as atitudes animalescas dos antepassados? Não seríamos maus como as cobras?
Nunca posso dizer com certeza no que me tornaria se vivesse na miséria mas uma coisa posso dizer: a probabilidade de me tornar uma cabra implacável sem escrúpulos, nem piedade que não sabe o que é altruísmo e totalmente ajustável ao perfil de assassina seria muito maior se me tirassem QUEM eu gosto. E espero que isto se verifique na maioria das pessoas.
É no final de contas, o maravilhoso resultado de evolução, porque se dantes matavámos quem não precisávamos hoje na maioria eramos capazes de matar se nos privassem de quem precisamos.
A mente humana não tem limites para nada, o mal não é excepção. Cometem-se atrocidades todos os dias, fazem-se coisas cada vez mais repudiantes e elaboradas para magoar as pessoas mas predominantemente o bem já está no DNA da espécie humana.
O planeta vai assegurar a bondade de confortabilidade? Provavelmente não.
Se a penúria atingir a maioria espero que a espécie humana tenha pontos bondosos suficientes para não sofrer involução.
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